"A vida em português: publicações diárias menos ao fim-de-semana, excepto quando coincide com acontecimentos que considero especiais, e porque me apetece; as crónicas escolhidas são seleccionadas pela actualidade do tema e pelo seu interesse intemporal; todas as publicações terão (quase) sempre autoria, execução, participação ou temática portuguesa."
Sábado
Meu Coração
Abre, ao sol, em sorrisos de verdura.
E o rubro raio aceso que fulmina
Rasga o seio da nuvem que é ternura.
Ao longo de erma e pálida colina,
Um doce fio de água anda à procura
De alguma rosa angélica e divina,
Abandonada e morta de secura.
Meu forte coração também nasceu
Para criar, cantando, um novo céu.
Ninguém lhe entende a mística harmonia!
Lembra remota estrela desmaiada
Que mal se vê, na abóbada azulada,
Mas, para um outro mundo, é grande dia.
[ Teixeira de Pascoaes ]
Um desejo para 2012
[ Eduardo Lourenço ]
Revelação
E sei,
Assim,
Que já vieste!
- Há uma rosa
Na manhã agreste...
[ Pedro Homem de Mello ]
Canções Em Fuga
Instruída no amor
por dez mil livros,
ensinada pela transmissão
de gestos pouco mutáveis
e juras tolas -
mas só aqui
iniciada no amor -
(...)
[ Ingeborg Bachmann ]
Sexta-feira
"O Sangue, a Água e o Vinho"
Do coração dos frutos um Sopro diz às mãos
o caminho das ondas, acende a luz
ao Anjo. O meio dos perfumes enche as rosas
de tintas de silêncio, e a secura
dos lábios estendida agora já não mais
ardente vai ficar, sem uma qualquer culpa
oculta e desculpável. um gesto
é necessário. mais nada, e será feita
a central companhia nesse leito de paz.
[ Pedro Tamen ]
Gratidão
E pelas notas de amor que o violino não vibra!
Obrigado por esta solidão que me esfarpa e me liberta!
Mas sobretudo obrigado pela lágrima que veio,
Inesperada, sorrir nos meus olhos!
[ Cristovam Pavia ]
O exigível
[ Manuel António Pina]
Quinta-feira
V
para fabricar uma renúncia.
[ A.M. Pires Cabral ]
Sobre Um Improviso De John Coltrane
como no ringue o lutador caído
espera a sala vazia
primeiro vive-se e não se pensa em nada
não me digam a mim
com o tempo apenas se consegue
chegar aos degraus da frente:
é difícil
é cada vez mais difícil entrar em casa
não discuto o que fizeram de nós estes anos
a verdade é de outra importância
mas hoje anuncio que me despeço
à procura de um país de árvores
e ainda se me deixo ficar
um pouco além do razoável
não ouvem? O amor é um cordeiro
que grita abraçado à minha canção
[ José Tolentino Mendonça ]
Uma separação
- Durante o Império Sassânida existiam duas classes sociais, a Nobreza e...?
- E as pessoas normais.
- O «Povo».
O Amor No Ocidente
[ Denis de Rougemont ]
Terça-feira
Nós, as "gorduras".
[ Manuel António Pina ]
Segunda-feira
Flutuar
[George Sand ]
Âncoras e Bóias
Domingo
«Contos de Fados» num verdadeiro conto de fadas!!
1. PJ Harvey - Let England Shake
2. James Blake - James Blake
3. Tom Waits - Bad as Me
4. Shabazz Palaces - Black Up
5. Destroyer - Kaputt
6. Bon Iver - Bon Iver
7. Halloween - Árvore Kriminal
8. Norberto Lobo - Fala Mansa
9. Eleanor Friedberger - Last Summer
10. The Weeknd - House of Baloons
11. Real Estate - Days
12. Kurt Vile - Smoke Ring For My Halo
13. Panda Bear - Tombou
14. Fleet Foxes - Helplessness Blues
15. Aquaparque - Pintura Moderna
16. Cass McCombs - Wit's End
17. Fausto Bordalo Dias - Em Busca das Montanhas Azuis
18. Paul Simon - So Beautiful or So What
19. Rapture - In The Grace of Your Love
20. Aldina Duarte - Contos de Fados
"O Amor Genital"
[ António Coimbra de Matos ]
Madrigal Melancólico*
Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
A beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.
O que eu adoro em ti,
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito subtil,
Tão ágil, tão luminoso,
- Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.
O que eu adoro em ti,
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento,
Graça que perturba e que satisfaz.
O que eu adoro em ti,
Não é a mãe que já perdi.
Não é a irmã que já perdi.
E meu pai.
O que eu adoro em tua natureza,
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti - lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.
[ Manuel Bandeira ]
*Para ABCD
Sábado
Sexta-feira
Solidariedade num mundo insolidário
Aventura Da Memória
Quinta-feira
V
Mestre é Mestre!
De quem me afasto: quando me acontece um outro mestre achar o contrário, o efeito emocional, apesar de inverso, tem a mesma consequência artística na prática, efectivamente. Um mestre verdadeiro faz-nos sempre crescer, graças a Deus!
Instantes lúcidos
Os Amigos
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.
[ Eugénio de Andrade ]
Dedicatória
Amigo
Inaugurámos a palavra «amigo».
«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!
«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.
«Amigo» é a solidão derrotada!
«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!
Aos Amigos
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.
De paixão.
Quarta-feira
Terça-feira
Humor
Desprende-te, Coração
"Canções Mexicanas"
Cordélia
Sofrimento e/ou prazer
[ Sigmund Freud ]
Domingo
Maioridade artística
Parabéns, Senhor Realizador.
Sábado
A griffe da fruta
[ Ricardo Araújo Pereira ]
Sexta-feira
«Morrer para si próprio»
Quinta-feira
Lei
Sem Título
Quarta-feira
Moralismos à parte
Dúvidas sérias
Terça-feira
As minhas maiores suspeitas
" O meu coração tem disto"
[ Informação para admiradores e não admiradores: eu entro aos 40mn ]
Os abismos da alma e a irracionalidade animal
O Encontro
Que raio de ideia, ter-te marcado encontro neste sítio, porque diabo não escolhi uma pastelaria, um café, um centro comercial, tudo menos uma esquina que me disseste ser perto do teu emprego para acrescentares, logo a seguir, juras de pontualidade, e eu a acreditar em ti, combinámos às cinco horas e, desde a um quarto para as cinco, que estou aqui plantado, ora num pé ora no outro, a confundir-te com todas as pessoas que se aproximam, uma mulher ao longe e eu, de imediato
- É ela
de coração aos baldões e mãos suadas, a mulher sempre outra mulher, nem me olha, aliás espanta-me que me tenhas olhado, nunca tive grande sucesso, nunca se apaixonaram por mim, pode ser que uma vez mas tenho dúvidas, chamava-se Carla, trabalhava na recepção de um hotel, o olho esquerdo fugia-lhe e o olho esquerdo afastou-me, pensava que as estrábicas chorassem de maneira diferente mas não, ainda me escreveu, não respondi, ainda me telefonou, não atendi e depois a cidade comeu-a, julgo que continua em qualquer lado, engolida pelo hotel, engolida pelo prédio onde mora com a mãe, engolida pelos anos que devoram tudo, a começar pelo esquecimento. E, depois, tu. Quer dizer quase não nos conhecemos, ficámos em mesas lado a lado na pizaria, a má criação da empregada uniu-nos, o gosto comum pelas lasanhas vegetarianas tornou-se uma ponte entre nós, a falha no verniz do mindinho enterneceu-me, marcámos este encontro para um cinema, despedimo-nos com um passou bem demorado que me soube a beijo, afastaste-te sem olhar para trás, depois de me teres consentido pagar a tua lasanha, cada qual com o seu porta-moedas na mão, guardaste-o, a contragosto, na carteira
- Da próxima sou eu que pago e não admito recusas
a próxima vez que é hoje, espero que jantar depois do cinema, espero que segurar a tua mão que hesita, tiro, não tiro, acaba por ficar, espero que um joelho, espero que uma bochecha no meu ombro, um primeiro beijo tímido, um segundo que se abre em corola, um suspirozinho, dedos exploradores no automóvel, cautelosos, medidos, arrumei o apartamento, deixei a cama feita, comprovei que não era grande espingarda a fazer camas, o lava-loiças limpo, os cinzeiros limpos, o jornal de ontem no balde, música suave, pronta a funcionar, na aparelhagem, basta carregar num botão e caem-te violinos em cima, um amigo meu garante que os violinos amolecem as mulheres, acrescenta
- Não me perguntes porquê mas amolecem
e não tenho motivos para não acreditar no rapaz, três casamentos, três divórcios, experiência, a chuva parece abrandar e eu feito um pinto, se calhar esqueceste-te, se calhar não pensaste mais nisso, nem o teu nome sei, para ser sincero não me lembro muito bem como és, altura média, acho eu, cabelo castanho, acho eu, ou com madeixas, não seria capaz de esclarecer, quem me garante que não te cruzaste já comigo, enquanto eu somava os sete homens carecas, sem te lembrares de como sou igualmente, quem me garante que não estavas à espera que eu sorrisse para me falares e, como não sorri, decidiste, desiludida
- Espera outra pessoa, vou-me embora
e não esperava outra pessoa, que pessoa, esperava-te a ti, espero-te a ti, de maneira que, agora que a chuva parou, vou recomeçar a contar de um a cem e de cem a um, recomeçar a contar automóveis pretos, taxis vazios, homens carecas, mulheres loiras, ambulâncias e corcundas, com um gosto de lasanha vegetariana na boca, seguro de que não terei que me ir embora porque vais chegar.
[ António Lobo Antunes ]JOHNNY GUITAR

Vienna: As many women as you've remembered.
Johnny : Don't go away.
Vienna: I haven't moved.
Johnny : Tell me something nice.
Vienna: Sure, what do you want to hear?
Johnny : Lie to me. Tell me all these years you've waited. Tell me.
Vienna: All those years I've waited.
Johnny : Tell me you'd a-died if I hadn't come back.
Vienna: I woulda died if you hadn't come back.
Johnny : Tell me you still love me like I love you.
Vienna: I still love you like you love me.
Johnny : Thanks. Thanks a lot.
I Love You, Música Portuguesa
Não posso, no entanto, deixar de notar que ainda há um longo caminho para percorrer. Neste momento, os artistas portugueses que cantam em inglês ainda estão condenados a dar entrevistas em português. Como é evidente, fazem falta jornais portugueses escritos em língua inglesa - ou, pelo menos, jornais portugueses que, embora fazendo perguntas em português (se querem mesmo insistir nesse capricho), permitam que as respostas possam ser dadas em inglês. Caso contrário, prosseguirá esta violência desumana que consiste em forçar cidadãos a exprimirem-se na sua própria língua. Creio que há um ou dois artigos na Declaração Universal dos Direitos Humanos que censuram essa prática.
Felizmente, nem tudo joga contra os músicos portugueses que cantam em inglês. Por coincidência, a língua na qual eles se sentem mais à vontade é falada internacionalmente. Isso pode evitar-lhes embaraços parecidos com os que sempre afligiram os músicos portugueses com mais projecção lá fora. Todos nos lembramos dos concertos da Amália, sistematicamente interrompidos por espectadores que diziam: "Amália, what are you doing? Please sing in english! We don't understand you!" Para não falar do caso dos Madredeus, obrigados a tornar as suas letras mais acessíveis ao público estrangeiro ("À porta, I love you baby, daquela igreja, I miss you baby, vai um grande corrupio").
O meu único receio é que este desamor à língua portuguesa, e a ideia de que ela pode prejudicar o nosso ofício, tenham deflagrado no mundo da música e se propaguem a outras profissões. Que, por exemplo, um número considerável de canalizadores decida passar a consertar torneiras em inglês, para facilitar uma eventual carreira internacional, ou apenas porque tem mais estilo. "Let me unclog your toilet baby!" Enfim, não é o tipo de conversa que gostaria de ter com um canalizador. Embora reconheça que a frase talvez desse uma excelente música portuguesa.































