"A vida em português: publicações diárias menos ao fim-de-semana, excepto quando coincide com acontecimentos que considero especiais, e porque me apetece; as crónicas escolhidas são seleccionadas pela actualidade do tema e pelo seu interesse intemporal; todas as publicações terão (quase) sempre autoria, execução, participação ou temática portuguesa."

Sábado

Meu Coração

Na terra, uma semente pequenina
Abre, ao sol, em sorrisos de verdura.
E o rubro raio aceso que fulmina
Rasga o seio da nuvem que é ternura.

Ao longo de erma e pálida colina,
Um doce fio de água anda à procura
De alguma rosa angélica e divina,
Abandonada e morta de secura.

Meu forte coração também nasceu
Para criar, cantando, um novo céu.
Ninguém lhe entende a mística harmonia!

Lembra remota estrela desmaiada
Que mal se vê, na abóbada azulada,
Mas, para um outro mundo, é grande dia.


[ Teixeira de Pascoaes ]

Uma Fada Cristã


- Muitas graças!

Oníricos brilhos

Um desejo para 2012

“Espírito da Terra capaz de romper através da vida obscura da inércia animal para oferecer uma face de Deus ao apelo universal da luz, a Esfinge é encarnação perfeita da ambiguidade radical da situação humana. E ao mesmo tempo a realização plástica mais concreta do acto original do homem: a poesia.”


[ Eduardo Lourenço ]

GOVERNO SOMBRA 2011

KANDINSKY

Revelação

Respiro...
E sei,
Assim,
Que já vieste!
- Há uma rosa
Na manhã agreste...

[ Pedro Homem de Mello ]

A Sagração Da Primavera



* Obrigada, amiga.

Canções Em Fuga

VI


Instruída no amor
por dez mil livros,
ensinada pela transmissão
de gestos pouco mutáveis
e juras tolas -

mas só aqui
iniciada no amor -

(...)

[ Ingeborg Bachmann ]

Todo este céu



Sexta-feira

"O Sangue, a Água e o Vinho"

7

Do coração dos frutos um Sopro diz às mãos
o caminho das ondas, acende a luz
ao Anjo. O meio dos perfumes enche as rosas
de tintas de silêncio, e a secura
dos lábios estendida agora já não mais
ardente vai ficar, sem uma qualquer culpa
oculta e desculpável. um gesto
é necessário. mais nada, e será feita
a central companhia nesse leito de paz.

[ Pedro Tamen ]

"Retábulo da Memória"


















[ Anónimo ]

Gratidão

Obrigado por todos os sonhos impossíveis,
E pelas notas de amor que o violino não vibra!
Obrigado por esta solidão que me esfarpa e me liberta!
Mas sobretudo obrigado pela lágrima que veio,
Inesperada, sorrir nos meus olhos!

[ Cristovam Pavia ]

AMÁLIA



Fractais

A Ilha



O exigível

"O mínimo que nos é exigível é o máximo que somos capazes de fazer"

[ Manuel António Pina]

Quinta-feira

Natureza Morta

















[ Vincent van Gogh: Aqui ]

V

De bem pouca matéria precisamos afinal
para fabricar uma renúncia.

[ A.M. Pires Cabral ]

KEITH JARRETT

HELEN FRANKENTHALER

JOHN COLTRANE



Sobre Um Improviso De John Coltrane

Ainda espero o amor
como no ringue o lutador caído
espera a sala vazia

primeiro vive-se e não se pensa em nada
não me digam a mim
com o tempo apenas se consegue
chegar aos degraus da frente:
é difícil
é cada vez mais difícil entrar em casa

não discuto o que fizeram de nós estes anos
a verdade é de outra importância
mas hoje anuncio que me despeço
à procura de um país de árvores

e ainda se me deixo ficar
um pouco além do razoável
não ouvem? O amor é um cordeiro
que grita abraçado à minha canção

[ José Tolentino Mendonça ]

Uma separação



- Durante o Império Sassânida existiam duas classes sociais, a Nobreza e...?
- E as pessoas normais.
- O «Povo».

RADIOHEAD

O Amor No Ocidente

"Esta coisa absurda e magnífica, entre o muito mau e o bem supremo, que se chama com ligeireza amor."

[ Denis de Rougemont ]

Terça-feira

Até já!!

Nós, as "gorduras".

Primeiro foram os jovens desempregados a receber do secretário de Estado da Juventude guia de marcha para fora de Portugal; agora coube a vez aos professores, pela voz do próprio primeiro-ministro.

No caso dos professores, a coisa passa-se assim: o ministro Crato varre-os das escolas; depois, Passos Coelho aponta-lhes a porta de saída do país: emigrem, porque Angola e Brasil "têm uma grande necessidade (...) de mão-de-obra qualificada". Portugal (que é um dos países da Europa com mais baixos níveis de escolarização, segundo o Relatório do Desenvolvimento Humano de 2011, divulgado no mês passado pelo PNUD) não tem, como se sabe, necessidade de mão-de-obra qualificada.

E, como muito menos tem necessidade de mão-de-obra "desqualificada", ninguém se surpreenda se um dia destes vir o secretário de Estado do Emprego e o novo presidente do Instituto do Emprego e Formação (?) Profissional a mandar embora quem tiver como habilitações só o ensino básico; o ministro da Segurança Social a pôr na rua pensionistas e idosos (para que precisa Portugal de pensionistas e idosos, que apenas dão despesa?); o ministro da Saúde a dizer aos doentes que vão morrer longe, em países sem listas de espera e com taxas moderadoras em conta; o da Defesa a aconselhar os militares a desertar e ir para sítios onde haja guerras; e por aí adiante...

Percebe-se finalmente o que são as tais "gorduras do Estado": são os portugueses.

[ Manuel António Pina ]

Segunda-feira

Aleluia

Flutuar

"A fraqueza faz-se respeitar mais do que a energia. É por isso que os fortes são maltratados e os fracos flutuam sempre."

[George Sand ]

Advento



[ Robert Campin ]

Âncoras e Bóias

Alguns objectos da actividade piscatória, enquanto metáforas de muitos acontecimentos e comportamentos do foro humanístico, merecem atenção especial.

Domingo

«Contos de Fados» num verdadeiro conto de fadas!!

IPSILON: Melhores Discos Pop 2011

1. PJ Harvey - Let England Shake
2. James Blake - James Blake
3. Tom Waits - Bad as Me
4. Shabazz Palaces - Black Up
5. Destroyer - Kaputt
6. Bon Iver - Bon Iver
7. Halloween - Árvore Kriminal
8. Norberto Lobo - Fala Mansa
9. Eleanor Friedberger - Last Summer
10. The Weeknd - House of Baloons
11. Real Estate - Days
12. Kurt Vile - Smoke Ring For My Halo
13. Panda Bear - Tombou
14. Fleet Foxes - Helplessness Blues
15. Aquaparque - Pintura Moderna
16. Cass McCombs - Wit's End
17. Fausto Bordalo Dias - Em Busca das Montanhas Azuis
18. Paul Simon - So Beautiful or So What
19. Rapture - In The Grace of Your Love
20. Aldina Duarte - Contos de Fados

FIONA APPLE

"O Amor Genital"

"O amor genital é abnegado, reconhece, respeita e valoriza o objecto. É tolerante e grato, benevolente e acolhedor. Aprecia a partilha e a intimidade, mas considera e respeita os limites - que o sujeito adequa ao tipo de relação (parental, filial, amorosa, amistosa, de colaboração em trabalho físico ou intelectual) e à necessidade do objecto. Genital, entenda-se, não quer dizer sexual, mas maduro afectivamente. Não brinca, joga a sério, mantendo embora a dimensão lúdica e de humor, que é um fio essencial - o «fio amarelo» (só porque eu gosto do amarelo) - da tecedura de uma relação feliz. Poderíamos dizer, na peugada de Lacan, que integra o prazer do real, o gozo do imaginário e a alegria do simbólico - é concreto, fantasista e conceptual; do episódico, passando pelo mítico, atinge o semântico. Não é pusilânime mas magnânime. É amor, senhoras e senhores! Não é exploração, nem exibição narcísica. É relacional, não é masturbação a dois. «Sempre a relação, não é?», dizia-me em tempos uma aluna. Sim, a relação complementar não saturada - única livre, satisfatória e criativa, numa palavra, amorosa."


[ António Coimbra de Matos ]

PINA BAUSCH

Madrigal Melancólico*

O que eu adoro em ti,
Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
A beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito subtil,
Tão ágil, tão luminoso,
- Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento,
Graça que perturba e que satisfaz.

O que eu adoro em ti,
Não é a mãe que já perdi.
Não é a irmã que já perdi.
E meu pai.
O que eu adoro em tua natureza,
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.

Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti - lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.

[ Manuel Bandeira ]

*Para ABCD

Orfeu e Eurídice



[ George Frederick Watts ]

Sexta-feira

Parabéns e muitas graças.



PRÉMIO PESSOA

Solidariedade num mundo insolidário

"Não sei quando, mas há muito tempo, quase numa outra vida, lembro-me de ter lido sob a pluma de François Mauriac que «todas as misérias do mundo não impedem os santos de dormir». Penso hoje que esta observação provocante, que noutros lábios podia parecer cínica, do autor de Thérèse Desqueyroux, visava aquela espécie de corações sensíveis que trazem o seu amor ostensivo pela humanidade na lapela da alma. Ou então que, mais teologicamente, Mauriac, perito nos mil arcanos onde se refugia a hipocrisia humana, sempre pronta a ver o mal no mundo como obra dos outros, quando não de Deus, e jamais como obra nossa, desafiava assim o farisaísmo dos que se desculpam com o espectáculo da miséria universal para não verem nem remediarem aquela que mais deve importar-nos: a que está próxima, no sentido próprio e figurado. A começar pela nossa, naturalmente".

[ Eduardo Lourenço ]

MARGARIDA KENDALL

CHET BAKER


"Todo este céu"



[ Inês Felgueiras ]

Respeito(Te), doa o que doer.

Aventura Da Memória

"O género humano pensante, isto é, a centésima milésima parte do género humano, se tanto, tinha acreditado durante muito tempo, ou pelo menos tinha frequentemente repetido, que só através dos sentidos temos ideias, e que a memória é o único instrumento mediante o qual podemos juntar simultaneamente duas ideias e duas palavras.
É por isso que Júpiter, representando a Natureza, se apaixonou por Mnemosina, deusa da memória, desde o primeiro momento em que a viu; e desse casamento nasceram as nove Musas, as inventoras de todas as artes."

[ Voltaire ]

Quinta-feira

Está escrito: "Vais à Capela Sistina."

V

Faz da tua vida em frente à luz
Um lúcido terraço exacto e branco,
Docemente cortado
Pelo rio das noites.

Alheio o passo em tão perdida estrada
Vive, sem seres ele, o teu destino.
Inflexível assiste
À tua própria ausência.


[ Sophia de Mello Breyner ]

Não canto porque sonho

Mestre é Mestre!

De quem me aproximo: quando um mestre de artes musicais me contacta por escrito para fazer um reconhecimento positivo do meu trabalho "Contos de Fados" e do meu canto, eu avanço com uma vontade poderosa para fazer mais e melhor, imediatamente.
De quem me afasto: quando me acontece um outro mestre achar o contrário, o efeito emocional, apesar de inverso, tem a mesma consequência artística na prática, efectivamente. Um mestre verdadeiro faz-nos sempre crescer, graças a Deus!

A Barca Dos Amantes

Instantes lúcidos

O ondulado do cabelo comprido dela e a permanência dele naquele encontro inesperado e passageiro diziam tanto sobre o amor de quem assistia de longe condenado à partida.

Premonição



Os Amigos

Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.

[ Eugénio de Andrade ]

Dedicatória


[ Rembrandt ]

Ser um rosto de quem se admira a obra não basta para dar sentido a uma vida, mas pode salvar um coração no momento exacto. Às vezes é preciso só uma atenção para não deixar escapar um instante de felicidade que, mais tarde ou mais cedo, nos fará sempre falta.

Amigo

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!

«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!



[ Alexandre O'Neill ]

Travessia do Deserto

Aos Amigos

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

[ Herberto Hélder ]

Terça-feira

Humor

"O humorismo alivia-nos das vicissitudes da vida, activando o nosso senso de proporção e revelando-nos que a seriedade exagerada tende ao absurdo."

[ Charles Chaplin ]

Grande estirpe

Desprende-te, Coração

"Desprende-te, coração, da árvore do tempo,
soltai-vos, folhas, dos ramos esfriados,
outrora abraçados pelo sol,
soltai-vos como lágrimas de olhos de longes."

[ Ingeborg Bachmann ]

A NATUREZA DO MAL

Anjos Travessos

Tlim!

A luz de uma aguarela



[ Rachel Caiano ]

"Canções Mexicanas"



Ressoa, impressionantemente, a carga emocional que ferve por dentro da dureza da vida nestas canções literárias, no ouvido, primeiro, e na cabeça, depois. Desta vez, ao contrário (digo eu, na minha lhaneza!) dos outros livros que li do Gonçalo M Tavares, a existência é ritmo e a vivência melodia, também ao contrário do que eu suporia racionalmente, cantando sei bem o efeito desta inversão mas não sei como escrevê-la. Estas "Canções Mexicanas" são tão quentes e tão frias que queimam quase sempre, ulteriores à geografia onde nascem, vivem e morrem, elas só podem crescer do lado de dentro dos limites dos nossos corações.

[ Obrigada, Gonçalo ]

A LIVREIRA ANARQUISTA

Boa ideia

Cordélia

«Que assim seja; que a tua verdade seja então o teu dote». Uma frase espantosa de Lear, dita como uma maldição dirigida à filha. Não posso ter mais simpatia pela decisão de Cordélia de não adular o pai, de não mentir, mesmo numa situação em que seria tão fácil, tão vantajoso, tão aceitável. Como ela não mente, fica apenas com a verdade, com a sua verdade, que se torna então numa espécie de castigo. A verdade é o teu dote. E esse castigo vale mais do que todos os prémios.

Crimes E Escapadelas

Sofrimento e/ou prazer

"Privamo-nos para mantermos a nossa integridade, poupamos a nossa saúde, a nossa capacidade de gozar a vida, as nossas emoções, guardamo-nos para alguma coisa sem sequer sabermos o que essa coisa é. E este hábito de reprimirmos constantemente as nossas pulsões naturais é que faz de nós seres tão refinados. Porque é que não nos embriagamos? Porque a vergonha e os transtornos das dores de cabeça fazem nascer um desprazer mais importante que o prazer da embriaguez. Porque é que não nos apaixonamos todos os meses de novo? Porque, por altura de cada separação, uma parte dos nossos corações fica desfeita. Assim, esforçamo-nos mais por evitar o sofrimento do que na busca do prazer."

[ Sigmund Freud ]

Vibração infantil

As Horas Extraordinárias


Olhar em frente

Domingo

Presente surpresa #2


Presente surpresa

Maioridade artística

Ali estivemos à conversa, o David Ferreira, a Sara Pereira e eu, amparados por uma plateia magnífica,(com amigos e tudo), no dia do lançamento da edição especial dos meus "Contos de Fados". Cada vez gosto mais de ser fadista, e eu que achava impossível, desde 1993, poder gostar ainda mais. Atingi a maioridade artística, modéstia à parte, não me peçam contas, a despesa é toda minha.

Parabéns, Senhor Realizador.


"Manoel de Oliveira celebra este domingo, 11 de dezembro, 103 anos, com novo filme já rodado e atualmente em fase de montagem final. O cineasta concluiu a rodagem de "O Gebo e a Sombra", de Raúl Brandão, num estúdio parisiense."

Sábado

A Mulher Absoluta

"Não pratico habilidades"

Bom regresso

A griffe da fruta

A crise europeia não conseguirá derrotar-nos enquanto formos capazes de não perder de vista o essencial. Não permitamos, amigo leitor, que o aumento dos impostos, o desemprego e o corte dos subsídios nos impeçam de observar os grandes fenómenos sociais e culturais como este: a fruta, agora, traz etiquetas. Eu ainda sou do tempo em que havia apenas dois cuidados a ter com a fruta: lavar ou descascar. Desrotular é uma preocupação contemporânea. "Lavaste essa maçã, Carlinhos?", perguntavam as mães do século XX. "Lavaste e desetiquetaste essa maçã, Carlinhos?", perguntam as mães do século XXI. É mais uma preocupação extra, que as mães de antigamente não tinham. Por outro lado, o fenómeno alargou o mercado de trabalho, gerando as profissões de designer de etiquetas de fruta, fabricante de etiquetas de fruta e etiquetador de fruta.

Um analista incompetente terminaria aqui o seu exame ao fenómeno das etiquetas da fruta. Não é o nosso caso. Há que ir mais além e perceber todas as implicações sociológicas da etiquetagem hortofrutícola. Em primeiro lugar, a colocação de rótulos na fruta criou um facto social que estava por identificar até agora: o snobismo da fruta. Criança que, no recreio da escola, merende uma maçã desprovida de rótulo, passa a ser ostracizada pelos colegas que só consomem fruta de marca. Mesmo no âmbito das frutas de marca, haverá uma hierarquia que distingue as frutas de marcas mais prestigiadas, consumidas pelas crianças mais populares, das frutas de marcas menos boas, consumidas pelas outras.

Em segundo lugar, a rotulagem das frutas atrai um grupo social incómodo: os coleccionadores. Onde houver etiquetas, há coleccionismo. Se o leitor julga que estou a inventar, tem bom remédio: uma fácil e rápida pesquisa na internet revelar-lhe-á vários fóruns de coleccionadores de rótulos de fruta, com indicações úteis acerca do melhor modo de recolher, catalogar e trocar etiquetas, incluindo dicas práticas sobre o furto de etiquetas na zona dos frescos dos supermercados. Há numismatas sem dinheiro para investir em moedas que aplicam os seus conhecimentos em colecções de rótulos de fruta e filatelistas falidos que trocam os selos pelas etiquetas em álbuns que podem ser menos valiosos mas são tratados com o mesmo esmero choninhas.

Em 2011, o sistema financeiro está à beira do colapso e a realidade que conhecemos pode mudar drasticamente. Mas há quem ponha etiquetas na fruta, e quem recolha as etiquetas para as coleccionar. Só não se percebe se isso é um indício de que temos salvação ou mais um sinal de que o mundo está mesmo para acabar.

[ Ricardo Araújo Pereira ]

Abençoados!

Sexta-feira

"Assim na terra como no céu"

BELLINI

«Morrer para si próprio»

"Não é a fuga do espírito para fora do mundo mas o seu regresso em força ao seio do mundo! Uma recriação imediata. Uma reafirmação da vida, não certamente da vida antiga ou da vida ideal, mas da vida presente que o Espírito recupera(...)A partir de agora, o amor deixa de ser fuga e perpétua recusa do acto. Ele começa além da morte mas volta-se para a vida. E essa conversão do amor faz aparecer o próximo."

[ Denis de Rougemont ]

Ufa!

Quarta-feira

Na leveza dos dias

Moralismos à parte

"É o amor que humaniza o acto sexual."

[ Adam Phillips ]

Gosto disto

Dúvidas sérias

Poderá chamar-se amor se não for correspondido? A amizade pode ser uma relação intelectual e espiritual que exclui qualquer envolvência emocional e física? Há intimidade sem proximidade? Não sei.

Terça-feira

Umas e outras

Força + Ternura = Cumplicidade

As minhas maiores suspeitas

Quero toda a distância de quem nunca sente medo nem culpa de nada. E de quem têm sempre razão e que decide por todos o que é bom e mau. Não sendo tão perigosos, mas igualmente desagradáveis, há também os incapazes de elogiar e de agradecer.

" O meu coração tem disto"



[ Informação para admiradores e não admiradores: eu entro aos 40mn ]

Os abismos da alma e a irracionalidade animal

Para mim, a força estará sempre associada à dignidade, ao respeito pelo sofrimento, ao desenvolvimento dos talentos, à perseverança das capacidades, à busca da verdade, à consciência dos defeitos, à aceitação dos limites e ao amor. Por outro lado, a fraqueza estará sempre associada à inveja, à humilhação, ao desprezo, à punição da imperfeição, à violência, à traição, ao desamor e à crueldade. Podemos, e devemos, em muitos aspectos comparar-nos, do maior ao mais pequeno, com toda a bicharada, porém, antes os abismos da alma que a irracionalidade animal como reflexo primordial da existência humana. Quem pode dizer que não é feito de ambas as partes que atire a primeira e a última pedra.

Acordar

Na noite passada...

O Encontro

Conto até cem e, se não chegares antes dos cem, vou-me embora. Não chegaste antes dos cem. Conto de cem a um e, se não chegares antes do um, vou-me embora. Não chegaste antes do um. Conto dez automóveis pretos e, se não chegares antes dos dez automóveis pretos, vou-me embora. Não chegaste antes dos dez automóveis pretos. Nem antes dos quinze taxis vazios. Nem antes dos sete homens carecas. Nem antes das nove mulheres loiras. Nem antes das quatro ambulâncias. Nem sequer antes dos três corcundas e, entretanto, começou a chover. Começou a chover e não há um toldo onde abrigar-me, eu que não trouxe guarda-chuva, o céu sem nuvens quando saí de casa, previsão de céu sem nuvens para hoje, os camelos da meteorologia deviam ser fuzilados mas infelizmente não estamos em Cuba nem há maneira da máfia napolitana tomar conta da miséria deste país. E, já agora, da minha miséria, feito parvo à tua espera. Encosto-me ao prédio na esperança de me molhar menos mas as varandas, para além de pouco salientes, pingam-me gotas enormes na nuca: amanhã, está-se mesmo a ver, agonizo na cama a aspirinas, de termómetro debaixo do braço e a caixa dos lenços de papel quase vazia. Contar mais corcundas inútil, todos eles em casa, sequinhos, colados às janelas, a verem-me. Chegarás antes de acabar a chuva?

Que raio de ideia, ter-te marcado encontro neste sítio, porque diabo não escolhi uma pastelaria, um café, um centro comercial, tudo menos uma esquina que me disseste ser perto do teu emprego para acrescentares, logo a seguir, juras de pontualidade, e eu a acreditar em ti, combinámos às cinco horas e, desde a um quarto para as cinco, que estou aqui plantado, ora num pé ora no outro, a confundir-te com todas as pessoas que se aproximam, uma mulher ao longe e eu, de imediato

- É ela

de coração aos baldões e mãos suadas, a mulher sempre outra mulher, nem me olha, aliás espanta-me que me tenhas olhado, nunca tive grande sucesso, nunca se apaixonaram por mim, pode ser que uma vez mas tenho dúvidas, chamava-se Carla, trabalhava na recepção de um hotel, o olho esquerdo fugia-lhe e o olho esquerdo afastou-me, pensava que as estrábicas chorassem de maneira diferente mas não, ainda me escreveu, não respondi, ainda me telefonou, não atendi e depois a cidade comeu-a, julgo que continua em qualquer lado, engolida pelo hotel, engolida pelo prédio onde mora com a mãe, engolida pelos anos que devoram tudo, a começar pelo esquecimento. E, depois, tu. Quer dizer quase não nos conhecemos, ficámos em mesas lado a lado na pizaria, a má criação da empregada uniu-nos, o gosto comum pelas lasanhas vegetarianas tornou-se uma ponte entre nós, a falha no verniz do mindinho enterneceu-me, marcámos este encontro para um cinema, despedimo-nos com um passou bem demorado que me soube a beijo, afastaste-te sem olhar para trás, depois de me teres consentido pagar a tua lasanha, cada qual com o seu porta-moedas na mão, guardaste-o, a contragosto, na carteira

- Da próxima sou eu que pago e não admito recusas

a próxima vez que é hoje, espero que jantar depois do cinema, espero que segurar a tua mão que hesita, tiro, não tiro, acaba por ficar, espero que um joelho, espero que uma bochecha no meu ombro, um primeiro beijo tímido, um segundo que se abre em corola, um suspirozinho, dedos exploradores no automóvel, cautelosos, medidos, arrumei o apartamento, deixei a cama feita, comprovei que não era grande espingarda a fazer camas, o lava-loiças limpo, os cinzeiros limpos, o jornal de ontem no balde, música suave, pronta a funcionar, na aparelhagem, basta carregar num botão e caem-te violinos em cima, um amigo meu garante que os violinos amolecem as mulheres, acrescenta

- Não me perguntes porquê mas amolecem

e não tenho motivos para não acreditar no rapaz, três casamentos, três divórcios, experiência, a chuva parece abrandar e eu feito um pinto, se calhar esqueceste-te, se calhar não pensaste mais nisso, nem o teu nome sei, para ser sincero não me lembro muito bem como és, altura média, acho eu, cabelo castanho, acho eu, ou com madeixas, não seria capaz de esclarecer, quem me garante que não te cruzaste já comigo, enquanto eu somava os sete homens carecas, sem te lembrares de como sou igualmente, quem me garante que não estavas à espera que eu sorrisse para me falares e, como não sorri, decidiste, desiludida

- Espera outra pessoa, vou-me embora

e não esperava outra pessoa, que pessoa, esperava-te a ti, espero-te a ti, de maneira que, agora que a chuva parou, vou recomeçar a contar de um a cem e de cem a um, recomeçar a contar automóveis pretos, taxis vazios, homens carecas, mulheres loiras, ambulâncias e corcundas, com um gosto de lasanha vegetariana na boca, seguro de que não terei que me ir embora porque vais chegar.

[ António Lobo Antunes ]

JOHNNY GUITAR



Johnny: How many men have you forgotten?
Vienna: As many women as you've remembered.
Johnny : Don't go away.
Vienna: I haven't moved.
Johnny : Tell me something nice.
Vienna: Sure, what do you want to hear?
Johnny : Lie to me. Tell me all these years you've waited. Tell me.
Vienna: All those years I've waited.
Johnny : Tell me you'd a-died if I hadn't come back.
Vienna: I woulda died if you hadn't come back.
Johnny : Tell me you still love me like I love you.
Vienna: I still love you like you love me.
Johnny : Thanks. Thanks a lot.

[ Surripiado a M.S. ]

I Love You, Música Portuguesa

Temo não saber inglês suficiente para compreender a música portuguesa. Não quero parecer velho, mas ainda sou do tempo em que a música portuguesa era cantada em português. Lembro-me bem dessa altura em que um aspirante a cantor conseguia pegar numa guitarra sem começar a verter as suas canções para uma língua que os turistas entendessem. Era estranho, claro. Gente portuguesa a exprimir-se em português sempre me fez confusão. Trata-se de um idioma bastante limitado, que restringe as possibilidades de expressão dos seus falantes, e portanto não admira que haja quem se veja forçado a recorrer à língua inglesa quando se trata de transmitir pensamentos realmente sofisticados, tais como "I love you, baby", "Please forgive me, baby", "Don't break my heart, baby" ou "Yeah, baby, you are my baby".

Não posso, no entanto, deixar de notar que ainda há um longo caminho para percorrer. Neste momento, os artistas portugueses que cantam em inglês ainda estão condenados a dar entrevistas em português. Como é evidente, fazem falta jornais portugueses escritos em língua inglesa - ou, pelo menos, jornais portugueses que, embora fazendo perguntas em português (se querem mesmo insistir nesse capricho), permitam que as respostas possam ser dadas em inglês. Caso contrário, prosseguirá esta violência desumana que consiste em forçar cidadãos a exprimirem-se na sua própria língua. Creio que há um ou dois artigos na Declaração Universal dos Direitos Humanos que censuram essa prática.

Felizmente, nem tudo joga contra os músicos portugueses que cantam em inglês. Por coincidência, a língua na qual eles se sentem mais à vontade é falada internacionalmente. Isso pode evitar-lhes embaraços parecidos com os que sempre afligiram os músicos portugueses com mais projecção lá fora. Todos nos lembramos dos concertos da Amália, sistematicamente interrompidos por espectadores que diziam: "Amália, what are you doing? Please sing in english! We don't understand you!" Para não falar do caso dos Madredeus, obrigados a tornar as suas letras mais acessíveis ao público estrangeiro ("À porta, I love you baby, daquela igreja, I miss you baby, vai um grande corrupio").

O meu único receio é que este desamor à língua portuguesa, e a ideia de que ela pode prejudicar o nosso ofício, tenham deflagrado no mundo da música e se propaguem a outras profissões. Que, por exemplo, um número considerável de canalizadores decida passar a consertar torneiras em inglês, para facilitar uma eventual carreira internacional, ou apenas porque tem mais estilo. "Let me unclog your toilet baby!" Enfim, não é o tipo de conversa que gostaria de ter com um canalizador. Embora reconheça que a frase talvez desse uma excelente música portuguesa.


[ Ricardo Araújo Pereira ]

FADO NO GOVERNO SOMBRA

Segunda-feira

"Já cá cantam em casa"




Nota: a sair na Relógio D’Água uma obra infanto-juvenil de Hélia Correia, "A Chegada de Twainy", e de Pedro Mexia, "O Corso", um livro de textos críticos.

BONNARD

Hoje é um dia abençoado, antes de tudo.

Celebrar (O Verbo)

Parábola Do Cego

O cego ao ser curado
disse: vejo as pessoas como se
fossem árvores
andando.
Árvores andando, árvores imóveis,
árvores incendiadas, vultos verdes,
reais, contingentes, numa névoa
confusa, nos olhos confusos.
Nenhuma metáfora. Um ânimo fértil,
lúcido, um coração ferido e verde.
Quase prontos.

[ Pedro Mexia ]

MAHLER