"A vida em português: publicações diárias menos ao fim-de-semana, excepto quando coincide com acontecimentos que considero especiais, e porque me apetece; as crónicas escolhidas são seleccionadas pela actualidade do tema e pelo seu interesse intemporal; todas as publicações terão (quase) sempre autoria, execução, participação ou temática portuguesa."

Quinta-feira

"Contra Os Canhões, Marchar, Marchar!"

"A necessidade urgente de reduzir as despesas do Estado tem servido de justificação para tudo, mesmo para cortes além do que foi exigido pela troika formada pela Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional. E como não existem na economia compartimentos estanques, o aumento das jornadas de trabalho e a redução das remunerações no sector estatal repercute-se no agravamento da exploração também no sector privado. Mas se, de imediato, os capitalistas parece terem obtido assim uma enorme vitória sobre a classe trabalhadora, a muito curto prazo as contradições económicas agravar-se-ão. Com efeito, nenhum economista — nem sequer os que fazem parte das equipas que estudam aqueles cortes e os impõem — ignora que essa diminuição drástica das despesas do Estado equivale a um desincentivo da economia, provocando uma recessão; e que a recessão, constituindo uma redução da actividade económica, dos lucros e dos salários, provocará uma redução do volume total que o Estado conseguirá cobrar em impostos; e que esta redução do volume total dos impostos agravará o défice do Estado, o que o há-de levar a novos cortes nas despesas; e que estes novos cortes nas despesas agravarão mais ainda a recessão e assim por diante. Trata-se, não no sentido metafórico mas em sentido literal, de um círculo vicioso."

JOÃO BERNARDO