"A necessidade urgente de reduzir as despesas do Estado tem servido de justificação para tudo, mesmo para cortes além do que foi exigido pela troika formada pela Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional. E como não existem na economia compartimentos estanques, o aumento das jornadas de trabalho e a redução das remunerações no sector estatal repercute-se no agravamento da exploração também no sector privado. Mas se, de imediato, os capitalistas parece terem obtido assim uma enorme vitória sobre a classe trabalhadora, a muito curto prazo as contradições económicas agravar-se-ão. Com efeito, nenhum economista — nem sequer os que fazem parte das equipas que estudam aqueles cortes e os impõem — ignora que essa diminuição drástica das despesas do Estado equivale a um desincentivo da economia, provocando uma recessão; e que a recessão, constituindo uma redução da actividade económica, dos lucros e dos salários, provocará uma redução do volume total que o Estado conseguirá cobrar em impostos; e que esta redução do volume total dos impostos agravará o défice do Estado, o que o há-de levar a novos cortes nas despesas; e que estes novos cortes nas despesas agravarão mais ainda a recessão e assim por diante. Trata-se, não no sentido metafórico mas em sentido literal, de um círculo vicioso."