"A decadência estendeu-se também à arte oratória - tanto sacra como profana. O púlpito e o foro eram ontem tribunas onde se cultivava o verbo. E o parlamento, se não excedesse em demagogia ou em palavras sem palavra, parecia igualmente um templo em que no princípio era o verbo. Fora dessas tribunas públicas, não é preciso ter grandes invernos para haver conhecido gente de palavra fácil - conversadores notáveis que, na intimidade de um serão, encantavam pelo brilho da expressão, a memória pronta, o jeito natural de contar, e até de inventar, histórias. Quantos narradores se perderam assim, em palavras que o vento dispersou. Se têm passado ao papel o que oralmente expunham, teríamos aí algumas páginas saborosas, pela vivacidade do relato e sua exemplaridade quase de parábola."
[ João Bigotte Chorão ]