1. O ciclo litúrgico deste Natal chega hoje ao fim. Para quem não liga à liturgia católica, o Dezembro de 2012, das desejadas e incómodas festas natalícias, ainda vem longe. Começa para todos o chamado tempo comum. Este ano não é assim tão comum. As notícias, a nível local e internacional, só têm de comum, o facto de serem espantosamente perturbadoras.
Dirão uns que tem de ser mesmo assim, pois não há alternativa Para outros, é urgente encontrar um caminho de boas medidas, de bom senso. Temos a tendência a seguir o modelo do pêndulo. Se as coisas vão mal numa determinada direcção, julga-se que se acerta mudando, rapidamente, para a direcção oposta. É preferível encontrar o caminho de equilíbrios, mesmo sabendo que são instáveis. Nesse aspecto, o modelo do tear é o da sabedoria: ao ir de um lado ao outro, vai-se fazendo tecido com tudo o que de aproveitável vem do passado e com as novidades a introduzir. Isto vale o que vale: são sugestões de uma metáfora.
Para quem não tem de sofrer as consequências de certas medidas de carácter social, bastam-lhe a exactidão dos números. Não há gente pelo meio. Todos estão de acordo que a economia não é uma ciência exacta, mas deve contar com todas as pessoas. Talvez seja bom parafrasear uma sentença atribuída a Jesus Cristo: a economia é para as pessoas e não as pessoas para a economia.
Já temos muitos anos de UE e alguns de moeda única, o euro. Há muita escrita e “coloquiada” sobre o que não foi tido em conta na criação da UE e sobre as dificuldades de uma moeda única em economias tão desniveladas. É importante que a discussão continue, pois o que está a acontecer é estranho. São pouquíssimas as pessoas que decidem, sem mandato expresso, o destino de todos os europeus.
Dir-se-á, e com razão, que isto é conversa caseira. Está tudo globalizado. As consequências, sobretudo as más, são para todos, mas são muito poucos os que decidem dos negócios económicos e financeiros de um mundo que nos escapa. Sendo assim, precisamos mudar de paradigma e, até de altar. Hoje, os cristãos celebram a Epifania.
2. A palavra epifania – do grego epipháneia “aparição”- foi utilizada, desde o século V, para designar a narrativa da adoração do Menino Jesus pelos chamados Reis Magos. Não vou entrar na simbólica da estrela que os guiou, nem dos presentes que ofereceram: ouro, incenso e mirra. São um conto de literatura religiosa que já inspirou todas as artes ao longo dos tempos, a literatura, a escultura e a música. Tentar saber se estamos perante uma narrativa histórica ou lendária, é um exercício inútil. Que Jesus nasceu, já não há dúvidas. As narrativas e teologias do Novo Testamento e dos Apócrifos procuram sugerir o mistério desta criança que teve uma intervenção pública de poucos anos e acabou crucificada. Para entender a sua vida adulta tiveram de compor textos que mostrassem que esse desfecho não era um puro acaso.
3. A partir desses textos, Sophia de Mello Breyner Andresen, escreveu uma teologia narrativa muito original. Os seus Contos Exemplares são suficientemente conhecidos. Recomendo, para este Domingo, o último: Os três reis do Oriente. É um longo poema em prosa e um poema não suporta nem dá explicações. Apresento apenas uma pequena passagem, só como convite a uma nova leitura, perante a crise actual.
Um dos três reis do Oriente, depois de ter observado tudo, decepcionado com as consultas aos homens das ciências e da política, Baltazar virou-se para a religião.
(…) Na manhã seguinte, dirigiu-se ao templo de todos os deuses.
E leu estas palavras gravadas na pedra do primeiro altar: «Eu sou o deus dos poderosos e àqueles que me imploram concedo a força do domínio, eles nunca serão vencidos e serão temidos como deuses.»
Seguiu o rei para o segundo altar e leu: « Eu sou a deusa da terra fértil e àqueles que me veneram concedo o vigor, a abundância e a fecundidade e eles serão belos e felizes como deuses.»
Encaminhou-se o rei para o terceiro altar e leu: « Eu sou o deus da sabedoria e àqueles que me veneram concedo um espírito ágil e subtil, a inteligência clara e a ciência dos números. Eles dominarão os ofícios e as artes, eles se orgulharão como deuses das obras que criaram.»
E tendo passado pelos três altares, Baltazar interrogou os sacerdotes: - Dizei-me onde está o altar do deus que proteja os humilhados e os oprimidos, para que eu o implore e adore.
Ao cabo de um longo silêncio, os sacerdotes responderam: - Desse deus nada sabemos.
Naquela noite, o rei Baltazar, depois de a Lua ter desaparecido atrás das montanhas, subiu ao cimo dos seus terraços e disse: - Senhor, eu vi. Vi a carne do sofrimento, o rosto da humilhação, o olhar da paciência. E como pode aquele que viu estas coisas não te ver? E como poderei suportar o que vi se não te vir?
A estrela ergueu-se muito devagar sobre o Céu, a Oriente. O seu movimento era quase imperceptível. Parecia estar muito perto da terra. Deslizava em silêncio, sem que nem uma folha se agitasse. Vinha desde sempre (…).
Parece-me vã a discussão sobre o aumento ou o decréscimo da religião, de que tanto se fala. Talvez seja preferível perguntar: que olhos me dá a fé para ver o mundo dos humilhados e dos oprimidos e que olhos me dá esse mundo para descobrir a autenticidade da fé?
[ Frei Bento Domingues ]
[ Frei Bento Domingues ]