"Uma votação organizada pela Porto Editora determinou que a palavra do ano de 2011 é "austeridade". Parece-me evidente que Eduardo Catroga não participou nesta votação. "Austeridade no bolso dos outros para mim é refresco", como diz o ditado. Ora, sabendo que os cidadãos que participaram na eleição do vocábulo do ano não foram nomeados para um cargo na EDP que remunera 639 mil euros por ano, confesso alguma desilusão com a escolha. Tendo em conta o que 2011 foi e o que se adivinha que 2012 será, esperava que a palavra escolhida fosse recrutada num campo lexical mais, digamos, vernacular. Apontar "austeridade" como palavra do ano de 2011 é como dar uma martelada acidental num dedo e bradar: "Apre! Magoei um bocadinho a falangeta!"
A minha preferência por uma palavra com menos sílabas e mais expressividade não se deve tanto à minha predilecção pelo escândalo, mas sim ao meu amor pela verdade. Escolher uma injúria ou um lamento menos erudito como palavra do ano de 2011 teria sido mais acertado até do ponto de vista filosófico. Nomear é dominar, como sabemos. Dar um nome às coisas é conhecê-las, e o conhecimento é poder. No entanto, chamar austeridade à austeridade não nos serve de nada. Não nos ajuda a conhecê-la nem a dominá-la.
Conhecê-la é difícil, porque ela vai tomando novas qualidades e torna-se mais funda todos os dias. À austeridade da troika acrescentou-se a austeridade do Governo, que achou que a da troika não era suficientemente austera, e troika e Governo já avisaram que vai ser necessário austerizar ainda mais a austeridade, porque nenhuma das austeridades anteriores conseguiu ainda refrear convenientemente a nossa famosa vida à tripa-forra. É uma espécie de bolo de bolacha de austeridade, com várias camadas.
Dominar a austeridade é impossível, porque, em princípio, é ela que nos domina a nós - sem precisar de nos nomear. Numa tentativa esforçada (em mim inédita, e que prometo não tornar a levar a cabo) de tentar perceber melhor o assunto de que me ocupo, consultei o dicionário, e recolhi a totalidade dos significados da palavra eleita como símbolo do ano passado. Entre as definições mais corriqueiras ("qualidade de austero", "disciplina rigorosa", etc.) encontrei uma mais desenvolvida: "cuidado escrupuloso em não se deixar dominar pelo que agrada aos sentidos ou deleita a concupiscência." Eis uma definição que ajuda a compreender a austeridade: os portugueses não devem deixar-se dominar por aquilo que agrada aos sentidos (por exemplo: três refeições diárias), nem pelo que deleita a concupiscência (e sabemos todos quão concupiscente pode ser o desejo de viver em casas com energia eléctrica e água canalizada). Nomear a austeridade não nos permite dominá-la, mas ajuda-nos a saber aquilo que não devemos deixar que nos domine. Já é qualquer coisa."
[ Ricardo Araújo Pereira ]