"A vida em português: publicações diárias menos ao fim-de-semana, excepto quando coincide com acontecimentos que considero especiais, e porque me apetece; as crónicas escolhidas são seleccionadas pela actualidade do tema e pelo seu interesse intemporal; todas as publicações terão (quase) sempre autoria, execução, participação ou temática portuguesa."

Quarta-feira

Fidelidade

Nas ruas da cidade anda o meu amor. Pouco
me importa onde vá no tempo dividido. Já não é o
meu amor, quem quer que seja lhe pode falar, Já nem
sequer se lembra; quem na verdade amou?

Procura o seu semelhante na promessa dos olhares.
O espaço que percorre é a minha fidelidade.
Desenha a esperança e depressa a repele, É tão
preponderante como desprendido.

No fundo dele vivo como destroço feliz. Com
pesar seu, a minha solidão é o seu tesouro. No grande
meridiano onde o seu impulso se inscreve, penetra-o
a minha liberdade.

Nas ruas da cidade anda o meu amor. Pouco
me importa onde vá no tempo dividido. Já não é o meu
amor, quem quer que seja lhe pode falar. Já nem
sequer se lembra; quem na verdade o amou e ilumina
de longe para que se mantenha de pé?

[ René Char ]