O ano em que se assinala o centenário do naufrágio do Titanic começou
com o naufrágio do Costa Concordia. E isso é tanto mais inquietante
quanto uma das passageiras do Concordia, Valentina Capuano, era
sobrinha-neta de uma vítima do Titanic, Giovanni Capuano. Mas há
outras rimas perturbadoras, da iminente guerra europeia de há um
século ao presente colapso europeu, passando pelo facto de há dois
anos o Costa Concordia ter sido escolhido pelo cineasta Jean-Luc
Godard como cenário de uma espécie de filme-catástrofe sobre o
capitalismo.
Também podemos notar, é certo, diferenças pronunciadas. Aqui no
Expresso, o historiador Rui Ramos detectou algumas: “No Titanic, o
capitão foi ao fundo com o navio; no Concordia, é acusado de ter sido
o primeiro a fugir. No Titanic, como demonstra a estatística dos
sobreviventes, os homens honraram a prioridade clássica das mulheres e
crianças; no Concordia, correram logo histórias de latagões a empurrar
mulheres e a pisar crianças para chegar primeiro aos salva-vidas”. É
como se ao colapso naval se viesse juntar agora um “colapso ético”.
Podemos no entanto ir muito mais atrás, ao tema do “naufrágio com
espectador”, que deu nome a um livrinho excelente do filósofo alemão
Hans Blumenberg, publicado em 1979. A cena de uma catástrofe naval
observada por alguém em terra vem de “De Rerum Natura”, poema
didáctico de Lucrécio, autor romano que viveu no séc. I a.C.. Lucrécio
era um “epicurista”, algo que se traduz hoje menos confusamente como
“estóico”. No seu texto, o poeta romano procura explicar “a natureza
das coisas”, nomeadamente uma forma embrionária de atomismo que faz
dele um precursor do materialismo. Lucrécio estava interessado em
desmistificar a ideia de medo, medo dos deuses, medo da natureza, medo
das catástrofes. A passagem que descreve um homem em terra a ver um
naufrágio tem dado azo diferentes interpretações, que Blumenberg
analisa.
Uma das dúvidas mais pertinentes é se aquele homem retira algum gozo
do sofrimento alheio, ou se apenas se congratula com o facto de estar
a salvo; ou então, hipótese mais benigna, talvez não seja
concretamente um naufrágio e o sofrimento dos outros que o homem
observa, mas apenas o naufrágio enquanto metáfora, o sofrimento como
alegoria, ao passo que ele, o observador, aprendeu a distanciar-se
desses medos e desses desastres, tornou-se um espectador tranquilo, um
homem sábio, um pequeno deus impassível.
Blumenberg lembra que o naufrágio sempre foi “uma metáfora da
existência”, e estuda esse paradigma ao longo dos tempos, desde o
naufrágio do céptico Zenão às avassaladoras pinturas de Turner. O
filósofo retoma a ideia de que os homens sempre consideraram a terra
firme como o seu lugar natural, e por isso a aventura marítima
tornou-se sinónimo de insensatez. Quem sai da sua zona de conforto
fica exposto a recifes, temporais, calamidades. Em alto mar tudo é
instabilidade e perigo, enquanto em terra estamos em segurança. “No
campo das representações”, escreve Blumenberg, “o naufrágio é de certa
maneira a consequência legítima da viagem marítima”, o castigo pela
ousadia, como não deixaria de nos lembrar aquele “velho de aspeito
venerando” do nosso poema épico.
E o espectador? Em Lucrécio, o espectador ficava em terra a observar o
desastre marítimo, “é doce, quando no mar imenso os ventos agitam as
águas, / observar a partir de terra as tribulações alheias”.
Blumenberg sublinha que Lucrécio esclarece que o espectador não sente
gozo, mas alívio, um alívio egoísta; e que, por outro lado, a sua
relação filosófica não é com os náufragos, mas com o mar, com um mar
que inclui uma ideia de naufrágio, que a pressupõe. A metáfora do
naufrágio seria pois apenas um conceito tornado poético. Lucrécio está
consciente da nossa fragilidade, dos nossos medos reais e imaginários,
e imagina alguém, o “espectador”, que se mostra consciente e seguro de
si mesmo.
Outros autores contestaram esta visão, e Blumenberg dá-nos conta das
suas discordâncias. Mas o mais importante é que a própria imagem de
“naufrágio” tomou outras formas, foi-se libertando da metáfora
náutica. Aconteceram catástrofes naturais que marcaram uma
civilização, como o Terramoto de Lisboa, bem como batalhas e
revoluções que não deixaram nada igual ao que era antes. O naufrágio
de 1912, de resto, antecipou outro naufrágio, o da Europa, dois anos
depois, e o começo efectivo de um novo século, o século da técnica.
Uma técnica convencida da sua omnipotência titânica (o transatlântico)
ou destrutiva (o gás mostarda).
Uma grande diferença entre o Titanic (nome colossal) e o Concordia
(nome apaziguador) foi o modo como deles fomos espectadores. O Titanic
chocou com um iceberg nos mares gelados do Atlântico Norte, longe da
nossa vista, e à época apenas houve relatos nos jornais, ao passo que
o Concordia adernou na plácida baía de uma ilha mediterrânica, à vista
de todo o mundo. Na nossa ânsia televisiva, somos espectadores deste
naufrágio, desta tragédia que, para quem apenas a observa, se torna um
espectáculo, um espectáculo do sofrimento alheio, e talvez uma
alegoria do nosso.
Blumenberg, aliás, não nos tranquiliza, e recorre mesmo à famosa frase
de Pascal: “vous êtes embarqué”. Não podemos evitar a viagem porque já
embarcámos; e, diz Blumenberg, quem vai num navio já é de algum modo
um náufrago.
[ Pedro Mexia ]