"A vida em português: publicações diárias menos ao fim-de-semana, excepto quando coincide com acontecimentos que considero especiais, e porque me apetece; as crónicas escolhidas são seleccionadas pela actualidade do tema e pelo seu interesse intemporal; todas as publicações terão (quase) sempre autoria, execução, participação ou temática portuguesa."
Quarta-feira
Sem Título
Sei quem és, mas falta-me o teu nome -nem
sempre as palavras chegam até aos olhos. Mas
não te importes: há outras coisas que nunca
esquecerei - os meus braços ancorados no teu
corpo, uma cegueira, e o mundo de repente tão
pequeno - e essas, tu não sabes, mas faltam-me
também. O teu rosto, dá-mo por um segundo. A
tua boca, claro. São tantos anos sem ti nos vincos
da minha saia, tanta vida guardada para um dia
assim. Vira-te agora, pois. Deixa cair esse sorriso
dos teus lábios - nos meus há-de deitar-se como
o sol, ao fim da tarde, quando de novo sobre eles
respirares com o perfume salgado das marés. Mas
nada digas do meu corpo cansado - é uma camisa
de verão esquecida numa praia, e a roupa é sempre
o menos, tanto faz. Não vês quem sou? O tempo
não pode ter castigado apenas o meu olhar. Vem
para mais perto e espreita devagar: são tantos anos
sem os teus braços nas mangas do meu vestido,
tanto sangue guardado nas veias para uma noite
assim. E tu já vais?
[ Maria do Rosário Pedreira ]
sempre as palavras chegam até aos olhos. Mas
não te importes: há outras coisas que nunca
esquecerei - os meus braços ancorados no teu
corpo, uma cegueira, e o mundo de repente tão
pequeno - e essas, tu não sabes, mas faltam-me
também. O teu rosto, dá-mo por um segundo. A
tua boca, claro. São tantos anos sem ti nos vincos
da minha saia, tanta vida guardada para um dia
assim. Vira-te agora, pois. Deixa cair esse sorriso
dos teus lábios - nos meus há-de deitar-se como
o sol, ao fim da tarde, quando de novo sobre eles
respirares com o perfume salgado das marés. Mas
nada digas do meu corpo cansado - é uma camisa
de verão esquecida numa praia, e a roupa é sempre
o menos, tanto faz. Não vês quem sou? O tempo
não pode ter castigado apenas o meu olhar. Vem
para mais perto e espreita devagar: são tantos anos
sem os teus braços nas mangas do meu vestido,
tanto sangue guardado nas veias para uma noite
assim. E tu já vais?
[ Maria do Rosário Pedreira ]
Religião estável e religião itenerante
1. Até ao século XVIII, a cultura ocidental situava o ser humano numa atitude de dependência em relação a Deus. Com o acontecimento das Luzes, o ser humano passa a considerar-se como a fonte de todos os valores. A partir daí, edifica livremente o seu destino e escolhe livremente aquilo em que acredita. O Cristianismo - assim como as outras religiões da transcendência - confrontou-se com uma ruptura que pôs em causa o fundamento sobre o qual se tinha construído.
A "morte de Deus", proclamada por Nietzsche, tem muitos adeptos na modernidade que a vivem hoje de forma silenciosa. No entanto, a encarnação de Deus em Jesus de Nazaré oferece a base de uma proposição religiosa em consonância com a idade antropológica da modernidade.
Não vale a pena bradar contra a modernidade, a secularização, a laicidade e a perda de um ambiente cultural de constante referência a Deus, no qual, alguns até diziam, por humor ou distracção, sou ateu graças a Deus.
Não se pode pedir aos indiferentes, aos agnósticos, aos ateus, aos membros de outras religiões que façam o trabalho de evangelização da sociedade que compete aos cristãos e aos seus líderes.
Quando, hoje, se observa uma grande baixa na prática religiosa, seja ao nível da prática dominical, do número de baptizados e de casamentos, é fundamental ter em conta a situação social e cultural da Europa e do país.
2. Mgr. P. d'Ornellas fez, em Setembro, uma conferência aos novos bispos sobre a paróquia, a falta de padres e a participação dos leigos na vida e na missão da Igreja (NRT 134, 2012, 21-37). É muito abundante em citações do Vaticano II, dos dois últimos Papas e do Direito Canónico.
Diz que não é muito aconselhável mandar vir padres de dioceses ou de comunidades estrangeiras, para suprir os recursos nacionais. É, no entanto, possível e desejável reunir paróquias e propor, aos párocos, a vida em comunidade. Não surgem, porém, pistas para alterar a situação de penúria ao nível dos ministérios ordenados. Pede-se humildade para aceitar a situação presente, mas não é questionado o estatuto do padre e nem sequer é abordada a questão de se poder ordenar mulheres católicas. A ideologia de administração política de fazer "mais e melhor com menos", parece o último achado para as aflições diocesanas e paroquiais. Esta atitude parece querer tornar-se o último grito da pastoral. No entanto, as medidas de racionalidade administrativa não podem ser transpostas para a vida da Igreja, pois a metáfora "do pastor e das ovelhas" exige uma proximidade e uma relação de mútuo conhecimento, que é diferente de uma administração técnica.
Alfredo Teixeira, do Instituto Universitário de Ciências Religiosas, do Centro de Estudo de Religiões e Culturas (UCP), na sequência de outras investigações, publicou um estudo, na revista Theologica, 2ª série, 46,2 (2011); 249-271, sobre Identidades descompactadas: práticas e sociedades crentes no campo católico, que deve merecer uma grande atenção e debate que não cabe neste espaço.
Debruça-se, com muito rigor, sobre as actuais modalidades de prática religiosa que devem interrogar todos aqueles que têm responsabilidades pastorais. Refere uma entrevista a um pároco de Lisboa, num estilo muito oral, que pode servir para observar uma primeira descolagem do modelo tradicional: "os cristãos vão ao lugar onde se sentem bem dentro do universo da cidade. A cidade tem, por hipótese, um milhão de habitantes; há, suponhamos, trinta paróquias, na paróquia x está o Padre tal, naquela está o grupo tal que canta desta maneira, e as pessoas sentem-se envolvidas pelas características daquela celebração, ou daquelas iniciativas sociais, e depois as pessoas ligam-se às comunidades. A Comunidade não é, propriamente, apenas territorial, mas uma paróquia pessoal. Porquê? O que marca o ritmo daquela paróquia é o Padre que está à frente. Portanto, os fiéis que vão ali identificam-se com o ideal que o Padre oferece. Não vêm cumprir preceitos, vêm viver Comunidade. Se viessem cumprir preceitos, tanto dá que fosse o Padre x ou o Padre y, que fosse gago, surdo ou mudo. Mas se é uma paróquia pessoal, é fundamental a relação entre os fregueses e o pastor".
3. A sensibilidade religiosa actual já não se contenta com escolhas entre a paróquia do padre x e a do padre y. A socióloga francesa Danièle Hervieu-Léger, tendo em conta as transformações que na Europa e na América do Norte têm afectado os regimes de identificação religiosa, propôs a figura do "peregrino" como ideal-tipo da religiosidade móvel por oposição à figura da religiosidade estável no praticante-observante da "civilização paroquial".
Desprendida a religiosidade da objectividade social de uma religião herdada, os indivíduos procuram, com frequência, ideais espirituais que respondam às suas necessidades.
Na era do individualismo religioso e no quadro dos estilos de vida urbanos, que configurações podem revestir as práticas religiosas dos católicos que não perderam a nostalgia de uma comunidade, mas que se sentem em diáspora eclesial?
O trabalho de Alfredo Teixeira pode ajudar a encaminhar a interrogação.
[ Frei Bento Domingues ]
Terça-feira
Viagem
"Andar por terras distantes e conversar com diversas pessoas torna os homens ponderados."
[ Miguel Cervantes ]
[ Miguel Cervantes ]
Segunda-feira
ERLAND JOSEPHSON
À procura de Erland Josephson
"No início era o verbo"
[voz off]
- No último filme de Tarkovsky, O Sacrifício, ele diz esta frase bíblica: "No início era o verbo". O que é que ela te revela de essencial?
- Em sueco é muito bonita: "No início era o verbo".
Gosto de a dizer. É para nos recordar a importância da palavra.
Sem a palavra somos outra coisa
e a palavra é também uma acção.
No início era o verbo e sem o verbo não agimos.
Cada palavra…
cada palavra pronunciada é importante.
Põe o mundo em movimento,
mantém o mundo vivo.
Nós somos negligentes, mas temos razão para isso.
Não podemos suportar sempre o peso das palavras.
Portanto é bom que nos lembrem disso.
O Sacrifício recorda-nos
que no início era o verbo e que o usamos mal.
É preciso usar bem.
Quando penso nesta frase,
sinto uma espécie de orgulho.
Acho extraordinário sermos um ser humano, podermos exprimir-nos,
e de saber que a palavra é importante.
Há um pensamento de Luther de que também gosto,
que fala da palavra enquanto acção.
A palavra põe o mundo em movimento,
"a palavra em pleno voo não pode ser recuperada pela asa" / " a palavra em pleno voo já não pode ser recuperada"
Não se pode retirar o que se disse.
Se se diz uma obscenidade, ela já não pode ser recuperada.
Ela continua a existir
como uma realidade
para nos recordar
a força e o sentido da palavra.
Esta frase está na Bíblia e em O Sacrifício.
A evidência e o peso da palavra, o prazer também…
Não posso continuar o meu sermão…
Não sei porquê,
mas sinto-me um pouco incomodado ao falar disto tudo.
Talvez seja uma humildade de circunstância,
mas a palavra é importante.
A palavra, é o lugar onde começamos e acabamos.
*Muitas graças, minha amiga grande.
Estâncias Para Música
Muita mulher tem beleza,
nenhuma a tua magia;
e a tua voz tal riqueza,
que nem a da melodia
por sobre as águas do mar:
quando, num encantamento,
sonhando adormece o vento
e a onda pára um momento
e desfalece, a brilhar...
E a lua no céu fiando
a sua teia, a sorrir;
e o mar brandamente arfando
qual criancinha a dormir:
assim, dentro da minha alma,
eu me inclino, ao encontrar-te,
me suspendo, a escutar-te,
me curvo, para adorar-te:
com funda emoção, mas calma.
[ Lord Byron ]
nenhuma a tua magia;
e a tua voz tal riqueza,
que nem a da melodia
por sobre as águas do mar:
quando, num encantamento,
sonhando adormece o vento
e a onda pára um momento
e desfalece, a brilhar...
E a lua no céu fiando
a sua teia, a sorrir;
e o mar brandamente arfando
qual criancinha a dormir:
assim, dentro da minha alma,
eu me inclino, ao encontrar-te,
me suspendo, a escutar-te,
me curvo, para adorar-te:
com funda emoção, mas calma.
[ Lord Byron ]
"Os beijos não dados"
"Não é através da diminuição do humano que em nós cresce o divino."
[ Ermes Ronchi ]
[ Ermes Ronchi ]
Os Indivíduos
A meu ver são uma massa de gente egoisticamente desfigurada, com um discurso de benfeitores e que condenam qualquer felicidade alheia que não satisfaça as suas ilações. Enquanto grupo social vale a pena reflectir, sobre cada um em particular é melhor não pensar muito que pode ser tóxico e inutilmente desgastante.
Sexta-feira
A Vida
- Amas a vida?
- Sim, amo a vida.
- Então já fizeste metade do caminho.
[ Fédor Dostoievski ]
- Sim, amo a vida.
- Então já fizeste metade do caminho.
[ Fédor Dostoievski ]
Quinta-feira
Escolha
Amar mais e amar mal ou amar menos e bem? Demasiado óbvio.
Remédio
Todo o remédio violento está imbuído de um novo mal.
[ Francis Bacon ]
[ Francis Bacon ]
Quarta-feira
Bom dia. 174 pessoas gostam disto.
Eu sou filho único, mas houve um tempo em que desejei muito ter uma irmã. Foi quando, aos 14 anos, li Os Maias e percebi que dois irmãos podem divertir-se imenso. Após a leitura da obra de Eça de Queirós, compreendi a razão pela qual a fraternidade é um valor tão prezado. Os clássicos iluminam-nos, não há dúvida nenhuma. No entanto, nem todos os leitores podem ter a minha sensibilidade, e por isso é natural que o livro não comova toda a gente como me comoveu a mim. A Fnac acaba de lançar uma campanha que sugere: "Troque Os Maias pela Mayer". O anúncio gerou tanto sarrabulho no Facebook que foi rapidamente retirado. Este caso tem tamanha quantidade de factos a exigir reflexão que até tenho medo que me faça mal.
Primeiro, deve assinalar-se que uma campanha tem de ser mesmo muito canhestra para ser reprovada no Facebook. As pessoas do Facebook são, em geral, fáceis de agradar: declaram amizade umas às outras sem dificuldade nenhuma e qualquer proclamação simples como, por exemplo, "Ui, está tanto frio!", pode receber centenas de polegares aprovadores. Não é fácil irritar gente desta. E, ainda assim, a Fnac conseguiu-o.
Ora, a campanha não era assim tão má. Diz-se que a Fnac propunha um péssimo negócio ao cliente. Como um supermercado que dissesse: "Troque dois quilos de bife do lombo por uma lata de salsichas." Mas o anúncio não referia a quem pertenciam Os Maias e "a Mayer". Quem disse que é o cliente que entrega Os Maias e a Fnac que dá "a Mayer", e não o contrário? A campanha propõe uma troca. Tanto pode ser "Troque os seus Maias pela nossa Mayer" como "Troque os nossos Maias pela sua Mayer". Se nos perguntam: "Queres trocar dois quilos de lombo por uma lata de salsichas?", a resposta correcta é: "Sim, onde é que eu entrego a minha lata de salsichas?"
Além do mais, a troca faz especial sentido. Quem conhece Os Maias e a obra de Stephenie Mayer não pode deixar de verificar uma tautologia evidente. De acordo com a sinopse fornecida pela Wikipédia, os livros de Mayer contam a história de um vampiro vegetariano. É natural que quem tomou contacto com Os Maias apenas através dos apontamentos Europa-América ainda não tenha dado conta da semelhança. Para esses, desvendo um pouco mais do enredo. Sucede que o vampiro se apaixona por uma rapariga por cujo sangue se sente muitíssimo atraído - o que é problemático, uma vez que ela poderia levar a mal que ele lhe cravasse os dentes no pescoço para lhe beber o sangue. Sabe-se como são as mulheres: qualquer pequena coisa as pode indispor. Ou seja, temos um rapaz que se interessa por uma rapariga e o sangue dela constitui um problema. Exactamente a mesma história de Carlos e Maria Eduarda da Maia.
[ Ricardo Araújo Pereira ]
"Pero que las hay, hay!"
Conta o DN que, numa churrascaria de Los Angeles chamada "Ataque de Coração", um homem teve um ataque cardíaco ao comer um hambúrguer dito "triplo bypass". Se o restaurante cumprir o que promete no menu, o hambúrguer tinha 6 mil calorias e as batatas do acompanhamento foram fritas "em pura banha de porco".
Avocando Platão, escreve Borges que, "se (como diz o grego no Cratilo)/ o nome é o arquétipo da coisa,/ nas letras de 'rosa' está a rosa/ e todo o Nilo na palavra Nilo". Talvez, quem sabe?, se deva procurar nas provocadoras designações comerciais da "Churrascaria Ataque de Coração" e do hambúrguer "triplo bypass", e não no acaso ou no estado calamitoso das suas artérias, a origem do enfarte do infeliz cliente (que foi hospitalizado e "está livre de perigo").
Para quem acredite que as coincidências são a manifestação visível de realidades invisíveis e o insólito expressão do sólito, casos como este ou como o do carteiro que partiu três vezes a mesma perna no mesmo sítio (no mesmo sítio da perna e do seu giro diário) confirmam os piores temores.
Como é Carnaval, entremos no corso obscurantista: se o nome é o arquétipo da coisa, que coisa abissal e catastrófica se esconderá nas letras do nome Passos Coelho e atrás da palavra Portas? E, posto que Vítor significa "vitorioso" e que Gaspar, "aquele que veio inspeccionar", é nome de Rei Mago, poderemos esperar já em 2012 ouro, incenso e mirra? A que juros?
[ Manuel António Pina ]
"Toda a gente mente"
«Evebody lies», garantia o doutor House (cuja certidão de óbito foi anunciada há dias). Durante anos, não dei conta disso. Em miúdo, tive um contacto muito esporádico com a mentira, descobri aqui e ali alguns segredos, mas muito poucas mentiras, quase nenhuma. Passada a adolescência, lembro-me de uma tarde em que tive uma discussão com um amigo, eu contra a mentira, ele a favor, e quase sem dar por isso passámos de clube de debate a clube de combate, apercebi-me nesse dia da enorme importância que o tema tinha para mim, da importância desmesurada, perigosa. Mais tarde, como é normal, fui conhecendo mentirosos, ocasionais ou profissionais, mas as questões eram pequeninas ou nem me diziam respeito, e nunca fui de me meter na vida dos outros. Porém, espaçados no tempo, não escapei a dois momentos House, mentiras importantes, incapacitantes, com prova documental e tudo. Eu não sei o que é «a verdade», e nunca apregoei verdade nenhuma, mas sei o que é a mentira, a mentira vinda de quem não podia ter vindo, a mentira como abominação. Pensava nestas coisas esta noite quando encontrei uns papéis antigos, vestígios amenos, outros hostis, não me lembrava de quase nada, e à medida que lia notei que não havia naqueles papéis nenhuma mentira, nem uma, algumas frases eram sem dúvida epocais ou fugazes, mas todas me pareceram fidedignas, verdadeiras. E até as hostis se fizeram agora quase ternas. Toda a gente mente, dizia o doutor House, é possível, sei de quem me mentisse, sei de quem nunca me mentiu, e não há mais nada a que chame biografia.
[ Lei Seca ]
Os incompatíveis
Da mentira sei o trivial, o mesmo que qualquer adolescente mais ou menos retardado sabe, não me darei ao trabalho de saber mais, (atitude raríssima em mim), o mal que alguém me pode fazer mentindo equivale à sua expulsão espontanea da minha existência, no tempo certo, instala-se em mim uma repulsa física e emocional inexplicáveis e muito cruéis para um mentiroso particularmente. Somos, de facto, incompatíveis, acabando por ser bom para ambos esse afastamento inequívoco, juizos e ofensas morais à parte.
Dinâmica Subtil
Num ponto qualquer
sensualmente subtil
algo que antes servia para nada
irradia agora habitada surpresa
[ António Ramos Rosa ]
sensualmente subtil
algo que antes servia para nada
irradia agora habitada surpresa
[ António Ramos Rosa ]
Boas notícias
"Lígia Tavares, aluna de doutoramento do programa GABBA e actualmente investigadora do Instituto de Biologia Molecular e Celular, Universidade do Porto, publicou na revista Cell um estudo que descreve um novo complexo responsável pelo silenciamento de genes em células estaminais embrionárias.
Ao Ciência Hoje, a autora explica que ter identificado este novo mecanismo é importante para compreender a regulação genética que pode ter aplicações a nível de activar ou silenciar genes específicos.
“Isto pode ter implicações a nível de regular genes responsáveis por doenças genéticas ou cancro”. Para além disso, “pode ter implicações a nível da manutenção de células estaminais em estado embrionário e pode ser usado para reverter células diferenciadas em células indiferenciadas ou, em sentido inverso, para diferenciar células em tecidos específicos”, descreve." [ Daqui ]
Pequenas felicidades
Um dia feliz sem motivo é prova da existência de algo muito próximo da lavra divina, a respiração é serena, o silêncio é consciente, os sorrisos involuntários. Tudo está no seu lugar por um dia. A luz permanece na nossa atenção que recebe o que vem por bem e que deixa seguir o resto, intencionalmente.
Fidelidade
Nas ruas da cidade anda o meu amor. Pouco
me importa onde vá no tempo dividido. Já não é o
meu amor, quem quer que seja lhe pode falar, Já nem
sequer se lembra; quem na verdade amou?
Procura o seu semelhante na promessa dos olhares.
O espaço que percorre é a minha fidelidade.
Desenha a esperança e depressa a repele, É tão
preponderante como desprendido.
No fundo dele vivo como destroço feliz. Com
pesar seu, a minha solidão é o seu tesouro. No grande
meridiano onde o seu impulso se inscreve, penetra-o
a minha liberdade.
Nas ruas da cidade anda o meu amor. Pouco
me importa onde vá no tempo dividido. Já não é o meu
amor, quem quer que seja lhe pode falar. Já nem
sequer se lembra; quem na verdade o amou e ilumina
de longe para que se mantenha de pé?
[ René Char ]
me importa onde vá no tempo dividido. Já não é o
meu amor, quem quer que seja lhe pode falar, Já nem
sequer se lembra; quem na verdade amou?
Procura o seu semelhante na promessa dos olhares.
O espaço que percorre é a minha fidelidade.
Desenha a esperança e depressa a repele, É tão
preponderante como desprendido.
No fundo dele vivo como destroço feliz. Com
pesar seu, a minha solidão é o seu tesouro. No grande
meridiano onde o seu impulso se inscreve, penetra-o
a minha liberdade.
Nas ruas da cidade anda o meu amor. Pouco
me importa onde vá no tempo dividido. Já não é o meu
amor, quem quer que seja lhe pode falar. Já nem
sequer se lembra; quem na verdade o amou e ilumina
de longe para que se mantenha de pé?
[ René Char ]
O Medo
Não haverá razão para viver, nem termo para as nossas misérias, se fôr mister temer tudo quanto seja temível. Neste ponto, põe em acção a tua prudência; mercê da animosidade de espírito, repele inclusive o temor que te acomete de cara descoberta. Pelo menos, combate uma fraqueza com outra: tempera o receio com a esperança. Por certo que possa ser qualquer um dos riscos que tememos, é ainda mais certo que os nossos temores se apaziguam, quando as nossas esperanças nos enganam.
Estabelece equilíbrio, pois, entre a esperança e o temor; sempre que houver completa incerteza, inclina a balança em teu favor: crê no que te agrada. Mesmo que o temor reuna maior número de sufrágios, inclina-a sempre para o lado da esperança; deixa de afligir o coração, e figura-te, sem cessar, que a maior parte dos mortais, sem ser afectada, sem se ver seriamente ameaçada por mal algum, vive em permanente e confusa agitação. É que nenhum conserva o governo de si mesmo: deixa-se levar pelos impulsos, e não mantém o seu temor dentro de limites razoáveis. Nenhum diz:
- Autoridade vã, espírito vão: ou inventou, ou lho contaram.
Flutuamos ao mínimo sopro. De circunstâncias duvidosas, fazemos certezas que nos aterrorizam. Como a justa medida não é do nosso feitio, instantaneamente uma inquietude se converte em medo.
[ Séneca ]
Terça-feira
Sempre Difícil
Sempre difícil encontrarmo-nos, difícil, sempre, separarmo-nos.
E murcha cada flor no vento que declina.
Terminado que é o fio, morre na Primavera o bicho da seda.
A vela seca as lágrimas - quando já é só cinza.
De madrugada, o espelho faz-me triste, mudados nele os meus cabelos.
A voz que canta na noite, acorda o frio sentido do luar.
Daqui não é longe... daqui à Ilha dos Imortais,
Pássaro azul, depressa, gostava de lhe dar uma espreitadela.
[ Li Shangyin ]
E murcha cada flor no vento que declina.
Terminado que é o fio, morre na Primavera o bicho da seda.
A vela seca as lágrimas - quando já é só cinza.
De madrugada, o espelho faz-me triste, mudados nele os meus cabelos.
A voz que canta na noite, acorda o frio sentido do luar.
Daqui não é longe... daqui à Ilha dos Imortais,
Pássaro azul, depressa, gostava de lhe dar uma espreitadela.
[ Li Shangyin ]
Segunda-feira
Roma
"A minha Roma, que só é a cidade que mais amo porque Lisboa não está a concurso, é muito mais do que aquilo que se dá neste livro. E o pouco que aqui está, se calhar, nem sequer seria capaz de o escrever sobre Lisboa. Às vezes, não estar lá é a melhor maneira de não se esquecer uma cidade. Este livro é um agradecimento, impessoal e indeterminado: viver faz todo o sentido, quando se conheceu Roma."
[ António Mega Ferreira ]
[ António Mega Ferreira ]
Caramba!
- Com ou sem mim, eu quero é que sejas feliz.
- Obrigada.
- Obrigada.
O amor oferecido
"É preciso uma forte crença, isto é, genialidade, para compreender o amor oferecido."
[ Hugo Von Hofmannsthal ]
[ Hugo Von Hofmannsthal ]
O Corpo
"O homem não tem um corpo separado da alma. Aquilo que chamamos de corpo é a parte da alma que se distingue pelos seus cinco sentidos."
[ William Blake ]
Diz-me, luz do céu...
Diz-me, luz do céu,
sem véu,
foi assim que passaste no seu rosto?
[ Sandro Penna ]
sem véu,
foi assim que passaste no seu rosto?
[ Sandro Penna ]
Sábado
Um jogo (inventado)
Palavras divertidas para afastar lembranças indesejáveis, a ordem alfabética ajuda à concentração:
A - azabumbado;
B - basbaque;
C - canícula;
D - daninho;
E - enxota;
F - farfalhudo;
G - garganeira;
H - holandilha;
I - inócuo;
J - janota;
L - latinório;
M - marfolho
N - ninharia;
O - obcónico;
P - pirético;
Q - queque;
R - rubicundo;
S - supimpa;
T - tartamudear;
U - ulula;
V - vugívago;
X - xacoco;
Z - zuca;
A - azabumbado;
B - basbaque;
C - canícula;
D - daninho;
E - enxota;
F - farfalhudo;
G - garganeira;
H - holandilha;
I - inócuo;
J - janota;
L - latinório;
M - marfolho
N - ninharia;
O - obcónico;
P - pirético;
Q - queque;
R - rubicundo;
S - supimpa;
T - tartamudear;
U - ulula;
V - vugívago;
X - xacoco;
Z - zuca;
Recusa
Há quem se recuse a fragmentar o que é inteiro, numa espécie de solicitude pela harmonia das virtudes e imperfeições inatas de uma obra do destino, tratando-se de acontecimentos traçados pela grandeza dos sentimentos; a paixão, o amor, a amizade, a ternura, a alegria, o prazer, a admiração, a tristeza, a generosidade ou delicadeza, por exemplo. Tudo passa pelo reconhecimento das diferenças entre a indisponibilidade e a impossibilidade, para um pragmático pode ser uma demanda inusitada e para um romântico uma constatação banal, do que conheço as naturezas práticas metem ambas no mesmo saco mantendo tudo como está e as naturezas apaixonadas subtraem-se à esperança salvando-a dos substituíveis.
Sexta-feira
"Aqui Nos Encontramos"
"No centro de uma praça de Lisboa há uma árvores conhecida por cipreste lusitano (que na língua portuguesa significa português). Os seus ramos, em vez de se elevarem no céu, têm sido orientados para os lados, horizontalmente, pelo que formam um gigantesto e impenetrável guarda-chuva muito baixo com cerca de 20 metros de diâmetro. Cem pessoas poderiam facilmente abrigar-se debaixo dele. Os ramos são suportados por esteios metálicos colocados em círculo em torno do seu tronco maciço e retorto; a árvore não tem menos de duzentos anos de idade. junto dela os transeuntes podem ver uma placa informativa onde aparece inscrito um poema.
Parei para tentar decifrar algumas linhas:
...eu sou o cabo da tua enxada, a porta da tua morada, a madeira do teu berço e do teu próprio caixão...
Por todo o lado na praça, galinhas debicavam uma relva pouco cuidada em busca de alimento. Nas mesas que por ali se encontravam, homens jogavam sueca, cada um deles escolhendo e lançando as cartas com um misto de sabedoria e de resignação estampados no rosto. A vitória era por aqui um prazer pacato."
[ John Berger ]
Destino
"Não escolhemos a forma do nosso destino, mas podemos dar-lhe conteúdo. O que procura aventura encontrá-la-á — à medida da sua coragem. O que procura o sacrifício, será sacrificado — na medida da sua pureza."
[ Dag Hammarskjold ]
Inscrição
Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar.
[ Sophia De Mello Breyner ]
Os instantes que não vivi junto do mar.
[ Sophia De Mello Breyner ]
Amar (Te), porque sim.
Toda a minha biblioteca está à tua disposição. A voz obedece e eu canto: noites boas, noites más, muito, pouco, tudo ou nada. Revivo no outro que é em mim.
Quinta-feira
Naufrágio Com Espectador
O ano em que se assinala o centenário do naufrágio do Titanic começou
com o naufrágio do Costa Concordia. E isso é tanto mais inquietante
quanto uma das passageiras do Concordia, Valentina Capuano, era
sobrinha-neta de uma vítima do Titanic, Giovanni Capuano. Mas há
outras rimas perturbadoras, da iminente guerra europeia de há um
século ao presente colapso europeu, passando pelo facto de há dois
anos o Costa Concordia ter sido escolhido pelo cineasta Jean-Luc
Godard como cenário de uma espécie de filme-catástrofe sobre o
capitalismo.
Também podemos notar, é certo, diferenças pronunciadas. Aqui no
Expresso, o historiador Rui Ramos detectou algumas: “No Titanic, o
capitão foi ao fundo com o navio; no Concordia, é acusado de ter sido
o primeiro a fugir. No Titanic, como demonstra a estatística dos
sobreviventes, os homens honraram a prioridade clássica das mulheres e
crianças; no Concordia, correram logo histórias de latagões a empurrar
mulheres e a pisar crianças para chegar primeiro aos salva-vidas”. É
como se ao colapso naval se viesse juntar agora um “colapso ético”.
Podemos no entanto ir muito mais atrás, ao tema do “naufrágio com
espectador”, que deu nome a um livrinho excelente do filósofo alemão
Hans Blumenberg, publicado em 1979. A cena de uma catástrofe naval
observada por alguém em terra vem de “De Rerum Natura”, poema
didáctico de Lucrécio, autor romano que viveu no séc. I a.C.. Lucrécio
era um “epicurista”, algo que se traduz hoje menos confusamente como
“estóico”. No seu texto, o poeta romano procura explicar “a natureza
das coisas”, nomeadamente uma forma embrionária de atomismo que faz
dele um precursor do materialismo. Lucrécio estava interessado em
desmistificar a ideia de medo, medo dos deuses, medo da natureza, medo
das catástrofes. A passagem que descreve um homem em terra a ver um
naufrágio tem dado azo diferentes interpretações, que Blumenberg
analisa.
Uma das dúvidas mais pertinentes é se aquele homem retira algum gozo
do sofrimento alheio, ou se apenas se congratula com o facto de estar
a salvo; ou então, hipótese mais benigna, talvez não seja
concretamente um naufrágio e o sofrimento dos outros que o homem
observa, mas apenas o naufrágio enquanto metáfora, o sofrimento como
alegoria, ao passo que ele, o observador, aprendeu a distanciar-se
desses medos e desses desastres, tornou-se um espectador tranquilo, um
homem sábio, um pequeno deus impassível.
Blumenberg lembra que o naufrágio sempre foi “uma metáfora da
existência”, e estuda esse paradigma ao longo dos tempos, desde o
naufrágio do céptico Zenão às avassaladoras pinturas de Turner. O
filósofo retoma a ideia de que os homens sempre consideraram a terra
firme como o seu lugar natural, e por isso a aventura marítima
tornou-se sinónimo de insensatez. Quem sai da sua zona de conforto
fica exposto a recifes, temporais, calamidades. Em alto mar tudo é
instabilidade e perigo, enquanto em terra estamos em segurança. “No
campo das representações”, escreve Blumenberg, “o naufrágio é de certa
maneira a consequência legítima da viagem marítima”, o castigo pela
ousadia, como não deixaria de nos lembrar aquele “velho de aspeito
venerando” do nosso poema épico.
E o espectador? Em Lucrécio, o espectador ficava em terra a observar o
desastre marítimo, “é doce, quando no mar imenso os ventos agitam as
águas, / observar a partir de terra as tribulações alheias”.
Blumenberg sublinha que Lucrécio esclarece que o espectador não sente
gozo, mas alívio, um alívio egoísta; e que, por outro lado, a sua
relação filosófica não é com os náufragos, mas com o mar, com um mar
que inclui uma ideia de naufrágio, que a pressupõe. A metáfora do
naufrágio seria pois apenas um conceito tornado poético. Lucrécio está
consciente da nossa fragilidade, dos nossos medos reais e imaginários,
e imagina alguém, o “espectador”, que se mostra consciente e seguro de
si mesmo.
Outros autores contestaram esta visão, e Blumenberg dá-nos conta das
suas discordâncias. Mas o mais importante é que a própria imagem de
“naufrágio” tomou outras formas, foi-se libertando da metáfora
náutica. Aconteceram catástrofes naturais que marcaram uma
civilização, como o Terramoto de Lisboa, bem como batalhas e
revoluções que não deixaram nada igual ao que era antes. O naufrágio
de 1912, de resto, antecipou outro naufrágio, o da Europa, dois anos
depois, e o começo efectivo de um novo século, o século da técnica.
Uma técnica convencida da sua omnipotência titânica (o transatlântico)
ou destrutiva (o gás mostarda).
Uma grande diferença entre o Titanic (nome colossal) e o Concordia
(nome apaziguador) foi o modo como deles fomos espectadores. O Titanic
chocou com um iceberg nos mares gelados do Atlântico Norte, longe da
nossa vista, e à época apenas houve relatos nos jornais, ao passo que
o Concordia adernou na plácida baía de uma ilha mediterrânica, à vista
de todo o mundo. Na nossa ânsia televisiva, somos espectadores deste
naufrágio, desta tragédia que, para quem apenas a observa, se torna um
espectáculo, um espectáculo do sofrimento alheio, e talvez uma
alegoria do nosso.
Blumenberg, aliás, não nos tranquiliza, e recorre mesmo à famosa frase
de Pascal: “vous êtes embarqué”. Não podemos evitar a viagem porque já
embarcámos; e, diz Blumenberg, quem vai num navio já é de algum modo
um náufrago.
[ Pedro Mexia ]
Quarta-feira
Terça-feira
O Duelo Amável
"Um combate leal, quase aristocrático, entre o desejo e a ternura."
[ Pedro Mexia ]
[ Pedro Mexia ]
As Pessoas Felizes #2
"Não era saudade nem dor; era uma espécie de silêncio novo que lhe caía no coração."
Segunda-feira
Relações fáceis
A única relação fácil com a angústia é esperar pouco ou nada de tudo, a isto eu chamo vazio.
Reduzir A Dependência Das Coisas
Tudo consiste em reduzir a dependência das coisas.
Partes amanhã. Não mais nos veremos. Um pouco o
desertor a cada passagem da nossa alma ou
quem espera para morrer.
A aquisição de todos estes bens
as espécies de tristeza são o que
acompanha quem espera — quais as pretendidas
vantagens? a juventude ou o mar?
Que te importa o que posso ou não fazer? Se
estamos tão perto quando nas ruas cruzamos e dizemos
o herói de toda a circunstância — a tua vida
precede a minha a tua morte ao abrigo das paixões
mas nada disto é dito
animal que repousa sob o erro.
Pela última vez
põe os teus sapatos novos
tão contrários à fonte dos actos e à moral
e vem, mesmo que tenhas andado para lá do som,
lavadinho, para que eu possa passar a minha mão
pelo pêlo
pelo pêlo lugar também do saber e de toda a possessão.
[ João Miguel Fernandes Jorge ]
Partes amanhã. Não mais nos veremos. Um pouco o
desertor a cada passagem da nossa alma ou
quem espera para morrer.
A aquisição de todos estes bens
as espécies de tristeza são o que
acompanha quem espera — quais as pretendidas
vantagens? a juventude ou o mar?
Que te importa o que posso ou não fazer? Se
estamos tão perto quando nas ruas cruzamos e dizemos
o herói de toda a circunstância — a tua vida
precede a minha a tua morte ao abrigo das paixões
mas nada disto é dito
animal que repousa sob o erro.
Pela última vez
põe os teus sapatos novos
tão contrários à fonte dos actos e à moral
e vem, mesmo que tenhas andado para lá do som,
lavadinho, para que eu possa passar a minha mão
pelo pêlo
pelo pêlo lugar também do saber e de toda a possessão.
[ João Miguel Fernandes Jorge ]
Sem Título
A Fénix é o casal - Adão e Eva - que é e não é o primeiro.
[ Paul Éluard ]
[ Paul Éluard ]
Saúde
"Depois de uma queda deves sempre levantar-te. Apenas os animais não bípedes têm direito a continuar no chão. Por exemplo: quando um réptil cai continua caído. Estar caído é uma característica da sua existência. É um animal que vive caído, que vive sem se levantar.
Um bípede não é pois um animal que anda a duas patas, mas sim um animal que depois de cair se ergue sobre duas patas. Há uma diferença substancial nisto.
Portanto, só se deveria classificar um animal como bípede quando, após uma queda, ele se levantar novamente sobre dois apoios firmes e perguntar: para onde é que eu ia?"
[ Gonçalo M Tavares ]
O Mestre Do Arco
Tu, Ausente que é preciso amar...
final que nos escapa e perseguimos
como sombra de um pássaro pela vereda:
não mais quero buscar-te.
Vibrarei sem quase olhar a minha flecha,
se a corda do coração não estiver tensa:
o mestre d'arco zen assim me ensina
ele que há três mil anos Te observa.
[ Cristina Campo ]
final que nos escapa e perseguimos
como sombra de um pássaro pela vereda:
não mais quero buscar-te.
Vibrarei sem quase olhar a minha flecha,
se a corda do coração não estiver tensa:
o mestre d'arco zen assim me ensina
ele que há três mil anos Te observa.
[ Cristina Campo ]
As Pessoas Felizes
"Há muitas coisas belas na terra, mas nada iguala a recordação de um dia de Verão que declina, e temos onze anos e sabemos que o dia seguinte é fundamental para que os nossos desejos se cumpram. Quem conservar este sentimento pela vida fora está predestinado a um triunfo, talvez um tanto sedentário, mas que tem o seu reino no coração das pessoas. O coração das pessoas!"
[ Agustina Bessa-Luís ]
Sábado
"Che cos'è la poesia?"
"Fábula que poderias contar como o dom do poema, é uma história emblemática: alguém te escreve, a ti, de ti, sobre ti. Não, uma marca dirigida, confiada, é acompanhada de uma injunção, na verdade institui-se nessa ordem mesma que, por sua vez, te constitui, estabelecendo a tua origem ou dando-te lugar: destrói-me, ou melhor, torna o meu suporte invisível do exterior, no mundo (eis que surge já o traço de todas as dissociações, a história das transcendências), faz com que, em qualquer caso, a proveniência da marca permaneça de agora em diante inencontrável ou irreconhecível."
[ Jacques Derrida ]
As Coisas Fora Do Lugar
A ausência medida neste rosto humano,
a boca desampara o segredo de um desejo,
que o olhar nega; noites rasuradas,
aflitas e sem partilha, no pendor torpe
que as coisas desejaram, por fora do lugar
comporem uma outra ordem, que tememos.
[ José Alberto Oliveira ]
a boca desampara o segredo de um desejo,
que o olhar nega; noites rasuradas,
aflitas e sem partilha, no pendor torpe
que as coisas desejaram, por fora do lugar
comporem uma outra ordem, que tememos.
[ José Alberto Oliveira ]
Quarta-feira
"A Escrava Feia"
Na juventude, eu não sabia
Qual era o sabor da melancolia.
Gostava de subir aos altos pavilhões,
E fazer lá versos muito melancólicos.
Porém agora, tendo-lhe conhecido
O gosto já não quero
Falar mais dela, não,
Digo apenas: " Um dia fresco, que belo Outono."
(Xin Qiji )
Qual era o sabor da melancolia.
Gostava de subir aos altos pavilhões,
E fazer lá versos muito melancólicos.
Porém agora, tendo-lhe conhecido
O gosto já não quero
Falar mais dela, não,
Digo apenas: " Um dia fresco, que belo Outono."
(Xin Qiji )
A Gata E a Fábula
" Os olhos de Henriqueta tinham um brilho natural. "Vejo-o amanhã?", perguntara-lhe ela, ao deixá-lo nessa tarde. E ele ficava-lhe grato pelo brilho natural dos seus olhos, pela simplicidade das suas palavras, pelo amor que ela lhe oferecia e que ele ainda não aceitara, e por aceitar ela o amor que ele lhe dera já sem lho dizer."
( Fernanda Botelho )
Dedicatória Poética
"De ti nunca me despeço
minha sede meu senhor
tu que vês o que não digo
e o que não faço prevês
trazes a graça contigo
e o sentido que me dês."
( António Franco Alexandre )
minha sede meu senhor
tu que vês o que não digo
e o que não faço prevês
trazes a graça contigo
e o sentido que me dês."
( António Franco Alexandre )
Sexta-feira
A sobrevivência do pensamento é a pergunta
Quando uma resposta é antecipada a pergunta é imediatamente outra, é uma questão de sobrevivência do pensamento. E da possibilidade de sentir mais. Se o mau presságio estiver certo não haverá resposta, a pergunta está morta.
Quinta-feira
Sem Título
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não os escrever.
No amor prefiro os aniversários não redondos
para serem comemorados cada dia.
(Wislawa Szymborska )
ao ridículo de não os escrever.
No amor prefiro os aniversários não redondos
para serem comemorados cada dia.
(Wislawa Szymborska )
Trabalho
"Escolhe um trabalho de que gostes, e não terás de trabalhar nem um dia da tua vida."
( Confúcio )
( Confúcio )
Comover
O clamor do céu alcança o longe
Todos os risos frívolos se calam
Em cem léguas transidas ao redor
Perdem-se cem mil moedas de ouro
Buscam-se tugúrios nos nove cumes
Tudo de susto e espanto treme
A luz turva espraia no pântano
Ameaças e presságios de aguaceiros
Mas da concha do licor cerimonial
Nem uma só gota se derrama
(Fernanda Dias)
Todos os risos frívolos se calam
Em cem léguas transidas ao redor
Perdem-se cem mil moedas de ouro
Buscam-se tugúrios nos nove cumes
Tudo de susto e espanto treme
A luz turva espraia no pântano
Ameaças e presságios de aguaceiros
Mas da concha do licor cerimonial
Nem uma só gota se derrama
(Fernanda Dias)
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