02/12/16
25/11/16
Nominalmente
Este cais onde nominalmente a corda foi deslocada
fazia-me pensar que eu dissera a uma das vozes
que era uma junção. Mas vi partir à mesma distância
quilha, proa e centro. Começou o afastamento.
Aperfeiçoo as imagens que distinguem os lugares.
Água dispersiva, equidistância do sol, ambivalência
das margens. Cruel grito tradicional da gaivota,
no ponto aonde adeja e pesca. Cada sentimento
acumula demasiadas referências, para uma respiração.
fazia-me pensar que eu dissera a uma das vozes
que era uma junção. Mas vi partir à mesma distância
quilha, proa e centro. Começou o afastamento.
Aperfeiçoo as imagens que distinguem os lugares.
Água dispersiva, equidistância do sol, ambivalência
das margens. Cruel grito tradicional da gaivota,
no ponto aonde adeja e pesca. Cada sentimento
acumula demasiadas referências, para uma respiração.
18/11/16
11/11/16
04/11/16
28/10/16
O Eco Silencioso
21/10/16
14/10/16
Inesperadamente
já não te espero ver quando abro a porta
mas ainda esbarro com a tua ausência
é tudo o que não foste
o que não fomos
que me atravanca os dias
o espelho em que me vejo empalidece
como um retrato antigo
sinto-me longe
é quinta-feira
Março
o tempo não levanta
de resto aprendo que a monotonia
é apenas isto
o regressar contínuo
ao vazio das coisas
mas ainda esbarro com a tua ausência
é tudo o que não foste
o que não fomos
que me atravanca os dias
o espelho em que me vejo empalidece
como um retrato antigo
sinto-me longe
é quinta-feira
Março
o tempo não levanta
de resto aprendo que a monotonia
é apenas isto
o regressar contínuo
ao vazio das coisas
18/09/15
11/09/15
No País Da Magia
A maior parte das pessoas, o que mais evidente faz é roer o seu duplo. Isto não é permitido no país dos Magos, somos severamente castigados, temos que retratar-nos o mais depressa possível.
04/09/15
28/08/15
Um Beijo Dado Mais Tarde
"Apanhei uma pedra na vereda e arranhei-lhe a testa para aí fazer penetrar o que pensávamos e sentíamos (o nosso amor)."
"Esbatem-se as muitas sombras dentro desta sala, ficando a última a cantar sobre a lareira."
"A forma de dizer nada em amor."
"Deixar-se-á levar ao lado dos dias de maior esplendor."
"O Amante que lhe ensinou o canto, e o Amante que a ensinou a separar-se dele."
"Tudo o que nós percebemos com clareza e distintamente é verdadeiro."
"A vela tem um arco de violino perfeitamente definido, e acompanha a tarde dada a ler, e o esforço a ler; a vela tem uma presença humana ainda por definir, e acompanha o prazer de dar a ler, e o esforço de ler."
"Quem recebe olhos, recebe lágrimas."
"Eu aproximo-me deles, estou a subir por eles, e escrevo, no vazio deixado pelo espaço que os separa «o vazio do beijo»"
27/08/15
10/04/15
03/04/15
02/04/15
27/03/15
Não pode haver livro mais belo
Queria decifrar as fábulas e os mitos que os Antigos nos legaram, nos quais os pintores e os escultores encontram um prazer sem fim e sem pensamento, queria decifrá-los como hieróglifos duma sabedoria secreta e inesgotável cujo sopro me parecia por vezes sentir como através de um véu.
( Hugo von Hofmannsthal, in "A Carta de Lorde Chandos", Ed. Relógio D'Água)
24/03/15
20/03/15
17/03/15
13/03/15
"A Irmã Santo Suspiro"
![]() |
| 1945 |
(Teresa Veiga, in "Gente Melancolicamente Louca", Ed. Tinta-da-China)
02/03/15
As Necessidades da Alma
O risco
O risco é uma necessidade essencial da alma. A sua ausência suscita uma espécie de tédio que paralisa quase tanto como o medo, embora de uma forma diferente. Por outro lado, há situações que, ao implicarem uma angústia difusa sem riscos precisos, transmitem as duas enfermidades ao mesmo tempo.
O risco é um perigo que provoca uma reacção reflectida, quer dizer, que não ultrapassa os recursos da alma a ponto de a esmagar sob o medo. Em certos casos, inclui uma parte de jogo; noutras ocasiões, constitui o maior estímulo possível, quando uma obrigação concreta impele o homem a fazer-lhe frente.
A protecção dos homens contra o medo e o terror não implica a supressão do risco; pelo contrário, implica a presença permanente de uma certa quantidade de risco em todos os aspectos da vida social, pois a ausência de risco enfraquece a coragem a ponto de deixar a alma, se isso acontecer, sem a menor defesa interior contra o medo. É necessário apenas que o risco se apresente em condições tais que não se transforme em sentimento de fatalidade.
[Simone Weil, in "O Enraizamento", Ed. Relógio D'Água]
27/02/15
Blind Light
12.
em 1999 vi uma exposição no centro cultural hélio oiticica
lembro da luz que fazia naquela tarde
lembro da luz que entrava por uma janela no segundo andar
e transformava a sala de
exposição
lembro dos mapas atravessando toda a sala
os mapas espalhados sobre colchões
um colchão ao lado do outro colchão
lembro de sair de lá
e caminhar pelo centro do rio
rua luís de camões avenida passos
lembro da luz que fazia naquela tarde
blind light
13.
entrar no espaço interior equivale a sair?
14.
de que maneira uma tradução
quando entra na língua de chegada
pode deslocar o corpo do que sescreve ali
e refazer a roda de leitura e produção?
de que maneira um poeta escrevendo na mesma língua
como é o caso da adília lopes
pode entrar no corpo da literatura
e ser lido como tradução?
[ Marília Garcia, in "Um Teste de Resistores", Ed. Mariposa Azual]
em 1999 vi uma exposição no centro cultural hélio oiticica
lembro da luz que fazia naquela tarde
lembro da luz que entrava por uma janela no segundo andar
e transformava a sala de
exposição
lembro dos mapas atravessando toda a sala
os mapas espalhados sobre colchões
um colchão ao lado do outro colchão
lembro de sair de lá
e caminhar pelo centro do rio
rua luís de camões avenida passos
lembro da luz que fazia naquela tarde
blind light
13.
entrar no espaço interior equivale a sair?
14.
de que maneira uma tradução
quando entra na língua de chegada
pode deslocar o corpo do que sescreve ali
e refazer a roda de leitura e produção?
de que maneira um poeta escrevendo na mesma língua
como é o caso da adília lopes
pode entrar no corpo da literatura
e ser lido como tradução?
[ Marília Garcia, in "Um Teste de Resistores", Ed. Mariposa Azual]
24/02/15
Melancolia - Um Fragmento
Encostada à parede mais larga de um convento que se abatia,
Onde ruinosas heras amparavam a escarpa das ruínas -
De braços cruzados envolvendo a sua mortalha esfarrapada,
A melancolia fizera-a meditar até adormecer.
Os fetos comprimiam-se debaixo do seu cabelo,
A língua verde-escura da serpente ali se encontrava;
E silenciosamente como passara lânguida e serena brisa do mar,
Agitando-se, a folhagem longa e delgada curvou-se sobre o seu rosto.
O rosto pálido enrubesceu: o seu olhar impaciente
Resplandeceu eloquente em sono! Intimamente elaborados,
Sons imperfeitos os seus lábios movendo-se abandonaram,
E a sua fronte inclinada ocupou-se de agitado pensamento.
Estranho era o sonho -
[ Trad: Cecília Rego Pinheiro , in "Rosa do Mundo", Ed. Assírio & Alvim ]
Onde ruinosas heras amparavam a escarpa das ruínas -
De braços cruzados envolvendo a sua mortalha esfarrapada,
A melancolia fizera-a meditar até adormecer.
Os fetos comprimiam-se debaixo do seu cabelo,
A língua verde-escura da serpente ali se encontrava;
E silenciosamente como passara lânguida e serena brisa do mar,
Agitando-se, a folhagem longa e delgada curvou-se sobre o seu rosto.
O rosto pálido enrubesceu: o seu olhar impaciente
Resplandeceu eloquente em sono! Intimamente elaborados,
Sons imperfeitos os seus lábios movendo-se abandonaram,
E a sua fronte inclinada ocupou-se de agitado pensamento.
Estranho era o sonho -
[ Trad: Cecília Rego Pinheiro , in "Rosa do Mundo", Ed. Assírio & Alvim ]
20/02/15
13/02/15
06/02/15
A Primeira Manhã
O crepúsculo da manhã nascente sopra o esbraseamento
ténue e branco
em voo na linha do horizonte.
E por sobre límpidas
palidíssimas as luzes urbanas, acendem os espelhos
das salinas: quatro águas que estremecem a manhã.
Por trás da casa atrás de nós o húmido marulho
de pássaros frágeis que destecem a sombra.
A teu lado o corpo de quem te convida
à manhã do mundo.
ténue e branco
em voo na linha do horizonte.
E por sobre límpidas
palidíssimas as luzes urbanas, acendem os espelhos
das salinas: quatro águas que estremecem a manhã.
Por trás da casa atrás de nós o húmido marulho
de pássaros frágeis que destecem a sombra.
A teu lado o corpo de quem te convida
à manhã do mundo.
30/01/15
"Desenhar Nuvens"
"Levei quase 30 anos a conseguir cruzar pintura com cenografia. Caminhava com as duas práticas, em simultâneo, mas sem nunca as deixar aparecer contaminadas. Era um exercício secreto. Creio que estaria, por detrás, um respeito exagerado pela pintura e os meu ídolos. Também uma certa postura contra a cenografia clássica e ilustrativa."
23/01/15
As Contadoras De Histórias
"A Menina Feia bebe uns copos, confraterniza com amigos e colegas de ambos os sexos, mas não ousa intimidades, até nem lhe apetece. Apetece-lhe Ele, lá isso! Depois nem isso. Depois nem copos, tem vergonha, não quer que Ele se aperceba do exutório, ela também tem seu orgulho."
16/01/15
09/01/15
02/01/15
12/12/14
05/12/14
Quarto de Costura
Um óvulo imaginado,
espesso, fosco, amarelo,
pólen e penugem
que a mais potente das máquinas
ainda não inventada
abriria em universos.
O que parece indivíduo é vários.
Fosse boa cristã
entregava a Deus o que não entendo
e arrematava o bordado esquecido no cesto.
Tenho labirintite. Amei Aristóteles com fervor.
E por longo tempo deixei-o por Platão.
Enfadei-me, saudosa de carne e ossos,
acidez de sangue e suor.
O que deveras existe nos poupa perturbações,
sou uma vestal sem mágoas.
Terei o que desejo, carregando minha cruz
e morrendo nela.
Adélia Prado
espesso, fosco, amarelo,
pólen e penugem
que a mais potente das máquinas
ainda não inventada
abriria em universos.
O que parece indivíduo é vários.
Fosse boa cristã
entregava a Deus o que não entendo
e arrematava o bordado esquecido no cesto.
Tenho labirintite. Amei Aristóteles com fervor.
E por longo tempo deixei-o por Platão.
Enfadei-me, saudosa de carne e ossos,
acidez de sangue e suor.
O que deveras existe nos poupa perturbações,
sou uma vestal sem mágoas.
Terei o que desejo, carregando minha cruz
e morrendo nela.
Adélia Prado
28/11/14
21/11/14
14/11/14
Prefácio
Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) -
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insectos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direcção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
dependimentos demais
e tarefas muitas -
os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
que as moscas iriam iluminar
o silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
que as moscas não davam conta de iluminar
o silêncio das coisas anônimas -
passaram essa tarefa para os poetas
Manoel de Barros
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insectos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direcção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
dependimentos demais
e tarefas muitas -
os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
que as moscas iriam iluminar
o silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
que as moscas não davam conta de iluminar
o silêncio das coisas anônimas -
passaram essa tarefa para os poetas
Manoel de Barros
07/11/14
31/10/14
Uma única exposição em vida
"Apesar de só ter realizado uma única exposição individual em vida, em 1936, no Porto, a obra de Alvarez não caiu no esquecimento após a sua morte, graças aos esforços de um grupo de amigos e admiradores que, juntamente com o pai do artista, organizaram logo em 1942/43 uma exposição de homenagem apresentada no Porto e em Lisboa. A este facto não foi certamente alheia a sua participação como membro fundador do grupo +Além, que reuniu um conjunto de vozes “modernas” entre arquitectos e pintores, sintonizado na oposição às homenagens póstumas à pintura de Marques de Oliveira.
Em Abril de 1929, o grupo lançou um manifesto intitulado Em Defesa da Arte, em que se afirmava que a arte não tem apenas como fim produzir emoção nos espíritos que a observam, mas tem também sobre si a grande missão de transformar as sociedades, sendo “qualquer coisa que grita, que nos contorce e nos abre a sensibilidade”. Nesse mesmo ano organizam uma exposição colectiva no Salão Silva Porto, no Porto.
Alvarez teve um percurso artístico demasiado curto, coincidente com catorze anos de formação académica intercalados com viagens a Espanha e períodos de doença, vindo a morrer tuberculoso, aos 36 anos de idade. Trabalhou em torno de um número restrito de temas plásticos, em que se destacam paisagens urbanas e rurais do Porto, Minho, Galiza e Castela, cenas de um muito particular quotidiano, com figuras negras e tortas, sobretudo masculinas, alguns cenários fabris e de trabalho fluvial, as admiráveis figuras à chuva, retratos de personagens vistas em primeiro plano sobre paisagens fundeiras e as majestosas torres das catedrais espanholas, Segóvia e, sobretudo, Santiago de Compostela. Esta nova apresentação em Lisboa (a última data de 1987, na Galeria Almada Negreiros, da SEC) propõe um reencontro com um artista com um corpus iconográfico já estabelecido, mas cujo estudo permanece ainda em aberto."
[ DAQUI ]
24/10/14
17/10/14
Tempo De Mercês
Um paraíso de lagartixas, pois claro. O que ele, menino pequeno, gostava de estar à coca delas, muito quieto e calado. Surgia de súbito a cabecinha tesa, de olhinhos espertos, depois o corpo acinzentado, expectante, com ar de folha seca, lanceolada, mas tão vibrante e alerta, tão em trânsito mesmo quando parecia dormir, com uma tão espantosa riqueza de vida, uma tão incrível vontade de viver, até quando o corpo parcialmente lhe fugia.
Maria Judite Carvalho





























.jpg)

















