05/05/17

Em Particular

Qual o trapo preso à cintura, qual o farrapo mais sórdido
Que não tem um preço?
Para quê menear o corpo, sentir luxúria
Sem uma finalidade?
E assim adorámos-te um pouco
Mais do que a Cristo.

Djuna Barnes

1892 - 1982

14/04/17

Odisseia

"A ti não te está destinado, ó Menelau, vindo de Zeus,
Morrer em Argos criadora de cavalos, nem encontrar o teu fim.
Mas os imortais te mandarão para a Planura Elísia,
No extremo da terra, onde está o louro Radamanto.
Aí se oferece aos homens uma vida fácil.
Não neva, não há grande invernia, nem chuva,
Mas as brisas do Zéfiro sopram sempre ligeiras,
Vindas do Oceano, para refrescar os homens.
Isto porque possuis Helena, e para eles és genro de Zeus".

[ Homero, Odisseia, 4.561-569, em tradução de Maria Helena da Rocha Pereira ]

Maria Helena da Rocha Pereira

1925-2017

24/03/17

O Sino

(...) Acabou por decidir que a obsessão da sua presença seria preferível à obsessão da sua ausência (...) Mas por tardiamente ter descoberto em si o talento para a felicidade, maior o seu desencanto ao verificar que não podia ser feliz nem na companhia do marido, nem longe dele.

Iris Murdoch

1919 - 1999

17/03/17

Mágica

Não há amor ilegítimo.
*
Axioma para os músicos: Os pássaros cantm mal.
Outro axioma para os músicos: Os barcos cantam melhor do que as sereias.
*
Conselhos aos pintores: Para estrangular a natureza, há que ter dedos de fada.
*
Os meus versos são cálculos de evasão
*
Era tão mau actor que chorava de verdade
*
A Poesia sou eu.
*
Fugir do Homem, fugir da Natureza e sentar-me em cima do arco-íris com uma pluma na mão.

Vicente Huidobro

1893 - 1948

03/03/17

Húmus

1 de Maio.

Não só os sentimentos criam palavras, também as palavras criam sentimentos. As palavras formam uma arquitectura de ferro. São a vida quase toda a nossa vida - a razão e a essência desta barafunda. É com palavras que construímos o mundo. É com palavras que os mortos se nos dirigem. É com palavras, que são apenas sons, que tudo edificamos na vida. Mas agora que os valores mudaram, de que nos servem estas palavras? É preciso criar outras, empregar outras, obscuras, terríveis, em carne viva, que traduzem cóleras, o instinto e o espanto.

Raul Brandão

1867 - 1930

24/02/17

S / Título

Oh, como a hipocrisia
seduz, e como se esquece
que em criança se está mais perto
da morte que na velhice

Ébria de sono, a criança
sorve ao menos a ofensa do pires,
mas eu - com quem me amuaria? -
sozinho estou, em todos os caminhos.

Não quero dormir como um peixe
no desmaio fundo das águas,
é-me querida a escolha livre
dos meus cuidados, dores e mágoas.

Óssip Mandelstam

1891 - 1938