20/01/17

Espera

Enquanto dormes
No umbral dos teus sonhos,
Espero e contemplo silenciosamente o teu rosto
Quando a primeira estrela da manhã aparece na tua janela.
Assim, à beira-mar,
O asceta em plena meditação
Olha para o Este...
As suas horas de vigília são passadas em insónia e êxtase,
Enquanto espera a sua imersão
Na primeira luz da manhã.

Com os meus olhos
Beberei o primeiro sorriso
Que floresce nos teus lábios entreabertos
Como uma flor recém-nascida...
Esse é o meu desejo

Rabindranath Tagore

1861 - 1941

13/01/17

Cerejas

Nas cerejas havia o aroma da fermentação como em mais nenhum fruto. Apanhadas directamente da árvore, sabiam a enzimas com gosto a sol e este sabor era complementado com o brilho especial da sua pele.
Se comermos cerejas mesmo uma hora depois de serem apanhadas, o seu sabor funde-se com o da sua própria podridão. No dourado ou no vermelho da sua cor há sempre um vislumbre de castanho: a cor na qual irão amolecer e desintegrar-se.
A cereja refresca, não devido à sua pureza - como a maçã - mas por levemente, quase imperceptivelmente, picar a língua com a efervescência da sua fermentação.
Graças ao tamanho reduzido da cereja e à leveza da sua carne e à insubstancialidade da sua pele, o caroço da cereja foi sempre incongruente. Comer a cereja nunca nos preparava bem para o seu caroço. Quando o cuspíamos, parecia ter pouca relação com a carne que o rodeava. Assemelhava-se mais a um precipitado do nosso próprio corpo, um precipitado misteriosamente produzido pelo acto de comer cerejas. Após casa cereja, cuspíamos um dente de cereja.
Os lábios, distintos do resto do rosto, possuem o mesmo brilho das cerejas e a mesma plasticidade. Ambos têm a pele semelhante è pele de um líquido. É uma questão de superfícies capilares. Faz um teste para ver se a nossa memória não nos falha ou se os mortos exageram. Põe uma cereja na boca, não a mordas já, e por um milésimo de segundo repara como a densidade, a suavidade e a resiliência do fruto se equiparam perfeitamente à natureza dos teus lábios que o sustentam.

[ in "Aqui Nos Encontramos", Ed. Civilização ]

John Berger

1926 - 2017

09/12/16

Literatura

"Só é dizível o trágico. Não há uma literatura da felicidade. O que é trágico é o que tem relevo, é o que produz sombras, é o que recebe luz, é o que gera contrastes e é o que fascina."

Rui Nunes

1947

25/11/16

Nominalmente

Este cais onde nominalmente a corda foi deslocada
fazia-me pensar que eu dissera a uma das vozes
que era uma junção. Mas vi partir à mesma distância
quilha, proa e centro. Começou o afastamento.
Aperfeiçoo as imagens que distinguem os lugares.
Água dispersiva, equidistância do sol, ambivalência
das margens. Cruel grito tradicional da gaivota,
no ponto aonde adeja e pesca. Cada sentimento
acumula demasiadas referências, para uma respiração.

Fiama Hasse Pais Brandão

1938 - 2007

28/10/16

O Eco Silencioso

A poesia consolou-me na noite, mais que os barbitúricos que me receitaram, e recordo o momento em que finalmente adormeci, recitando, a quem amava, sonetos de Camões.

João Lobo Antunes

1944 - 2016

14/10/16

Inesperadamente

já não te espero ver quando abro a porta
mas ainda esbarro com a tua ausência

é tudo o que não foste
o que não fomos
que me atravanca os dias

o espelho em que me vejo empalidece
como um retrato antigo

sinto-me longe

é quinta-feira
Março
o tempo não levanta

de resto aprendo que a monotonia
é apenas isto
o regressar contínuo
ao vazio das coisas

Luís Amorim de Sousa

1937

11/09/15

No País Da Magia

A maior parte das pessoas, o que mais evidente faz é roer o seu duplo. Isto não é permitido no país dos Magos, somos severamente castigados, temos que retratar-nos o mais depressa possível.

Henri MIchaux

1899-1984

28/08/15

Um Beijo Dado Mais Tarde

"Apanhei uma pedra na vereda e arranhei-lhe a testa para aí fazer penetrar o que pensávamos e sentíamos (o nosso amor)."

"Esbatem-se as muitas sombras dentro desta sala, ficando a última a cantar sobre a lareira."

"A forma de dizer nada em amor."

"Deixar-se-á levar ao lado dos dias de maior esplendor."

"O Amante que lhe ensinou o canto, e o Amante que a ensinou a separar-se dele."

"Tudo o que nós percebemos com clareza e distintamente é verdadeiro."

"A vela tem um arco de violino perfeitamente definido, e acompanha a tarde dada a ler, e o esforço a ler; a vela tem uma presença humana ainda por definir, e acompanha o prazer de dar a ler, e o esforço de ler."

"Quem recebe olhos, recebe lágrimas."

"Eu aproximo-me deles, estou a subir por eles, e escrevo, no vazio deixado pelo espaço que os separa «o vazio do beijo»"

Maria Gabriela Llansol

1931-2008

27/03/15

Não pode haver livro mais belo

Queria decifrar as fábulas e os mitos que os Antigos nos legaram, nos quais os pintores e os escultores encontram um prazer sem fim e sem pensamento, queria decifrá-los como hieróglifos duma sabedoria secreta e inesgotável cujo sopro me parecia por vezes sentir como através de um véu.

( Hugo von Hofmannsthal, in "A Carta de Lorde Chandos", Ed. Relógio D'Água)

Hugo von Hofmannsthal

1874-1929

13/03/15

"A Irmã Santo Suspiro"

1945
A música tonitruante difundida pelo gramofone esvaziava-a das suas capacidades críticas e reduzia-a à condição de robô magnetizado num campo de concentração onde não havia lugar para gestos rebeldes. Na véspera da festa, o dia seguinte apresentou-se-lhe sob perspectivas tão grotescas que analisou várias hipóteses de fuga, todas falíveis excepto o suicídio, que, como aluna de um colégio católico, prontamente se apressou a descartar.

(Teresa Veiga, in "Gente Melancolicamente Louca", Ed. Tinta-da-China)

02/03/15

As Necessidades da Alma

O risco

O risco é uma necessidade essencial da alma. A sua ausência suscita uma espécie de tédio que paralisa quase tanto como o medo, embora de uma forma diferente. Por outro lado, há situações que, ao implicarem uma angústia difusa sem riscos precisos, transmitem as duas enfermidades ao mesmo tempo.
O risco é um perigo que provoca uma reacção reflectida, quer dizer, que não ultrapassa os recursos da alma a ponto de a esmagar sob o medo. Em certos casos, inclui uma parte de jogo; noutras ocasiões, constitui o maior estímulo possível, quando uma obrigação concreta impele o homem a fazer-lhe frente.
A protecção dos homens contra o medo e o terror não implica a supressão do risco; pelo contrário, implica a presença permanente de uma certa quantidade de risco em todos os aspectos da vida social, pois a ausência de risco enfraquece a coragem a ponto de deixar a alma, se isso acontecer, sem a menor defesa interior contra o medo. É necessário apenas que o risco se apresente em condições tais que não se transforme em sentimento de fatalidade.


[Simone Weil, in "O Enraizamento", Ed. Relógio D'Água]

Simone Weil

1909 - 1943

27/02/15

Blind Light

12.
em 1999 vi uma exposição no centro cultural hélio oiticica
lembro da luz que fazia naquela tarde
lembro da luz que entrava por uma janela no segundo andar
e transformava a sala de
exposição
lembro dos mapas atravessando toda a sala
os mapas espalhados sobre colchões
um colchão ao lado do outro colchão
lembro de sair de lá
e caminhar pelo centro do rio
rua luís de camões avenida passos
lembro da luz que fazia naquela tarde
blind light

13.
entrar no espaço interior equivale a sair?

14.
de que maneira uma tradução
quando entra na língua de chegada
pode deslocar o corpo do que sescreve ali
e refazer a roda de leitura e produção?
de que maneira um poeta escrevendo na mesma língua
como é o caso da adília lopes
pode entrar no corpo da literatura
e ser lido como tradução?


[ Marília Garcia, in "Um Teste de Resistores", Ed. Mariposa Azual]

Marília Garcia

1979

24/02/15

Melancolia - Um Fragmento

Encostada à parede mais larga de um convento que se abatia,
Onde ruinosas heras amparavam a escarpa das ruínas -
De braços cruzados envolvendo a sua mortalha esfarrapada,
A melancolia fizera-a meditar até adormecer.
Os fetos comprimiam-se debaixo do seu cabelo,
A língua verde-escura da serpente ali se encontrava;
E silenciosamente como passara lânguida e serena brisa do mar,
Agitando-se, a folhagem longa e delgada curvou-se sobre o seu rosto.

O rosto pálido enrubesceu: o seu olhar impaciente
Resplandeceu eloquente em sono! Intimamente elaborados,
Sons imperfeitos os seus lábios movendo-se abandonaram,
E a sua fronte inclinada ocupou-se de agitado pensamento.
Estranho era o sonho - 


[ Trad: Cecília Rego Pinheiro , in "Rosa do Mundo", Ed. Assírio & Alvim ]

Samuel Taylor Coleridge

1772 - 1834

06/02/15

"Passagens, Mudanças De Voz"


A Primeira Manhã

O crepúsculo da manhã nascente sopra o esbraseamento
ténue e branco
em voo na linha do horizonte.
E por sobre límpidas
palidíssimas as luzes urbanas, acendem os espelhos
das salinas: quatro águas que estremecem  a manhã.
Por trás da casa atrás de nós o húmido marulho
de pássaros frágeis que destecem a sombra.
A teu lado o corpo de quem te convida
à manhã do mundo.

Manuel Gusmão

1945

30/01/15

Cenografia

"Desenhar Nuvens"

"Levei quase 30 anos a conseguir cruzar pintura com cenografia. Caminhava com as duas práticas, em simultâneo, mas sem nunca as deixar aparecer contaminadas. Era um exercício secreto. Creio que estaria, por detrás, um respeito exagerado pela pintura e os meu ídolos. Também uma certa postura contra a cenografia clássica e ilustrativa."

José Manuel Castanheira

1952

23/01/15

As Contadoras De Histórias

"A Menina Feia bebe uns copos, confraterniza com amigos e colegas de ambos os sexos, mas não ousa intimidades, até nem lhe apetece. Apetece-lhe Ele, lá isso! Depois nem isso. Depois nem copos, tem vergonha, não quer que Ele se aperceba do exutório, ela também tem seu orgulho."


Fernanda Botelho

1926-2007

05/12/14

"Eu quero escrever um livro só [ Bagagem ] a vida inteira"

Quarto de Costura

Um óvulo imaginado,
espesso, fosco, amarelo,
pólen e penugem
que a mais potente das máquinas
ainda não inventada
abriria em universos.
O que parece indivíduo é vários.
Fosse boa cristã
entregava a Deus o que não entendo
e arrematava o bordado esquecido no cesto.
Tenho labirintite. Amei Aristóteles com fervor.
E por longo tempo deixei-o por Platão.
Enfadei-me, saudosa de carne e ossos,
acidez de sangue e suor.
O que deveras existe nos poupa perturbações,
sou uma vestal sem mágoas.
Terei o que desejo, carregando minha cruz
e morrendo nela.


Adélia Prado

Adélia Prado

1935