BLOG À PORTUGUESA
"A vida em português: publicações diárias menos ao fim-de-semana, excepto quando coincide com acontecimentos que considero especiais, e porque me apetece; as crónicas escolhidas são seleccionadas pela actualidade do tema e pelo seu interesse intemporal; todas as publicações terão (quase) sempre autoria, execução, participação ou temática portuguesa."
Terça-feira
V
As palavras movem-se, a música move-se
Apenas no tempo; mas o que somente vive
Pode somente morrer. As palavras, depois da fala, alcançam
O silêncio. Apenas pela forma, pelo padrão,
Podem as palavras ou a música alcançar
A quietação, como uma jarra chinesa ainda
Se move perpetuamente em sua quietação.
Não a quietação do violino, enquanto a nota dura,
Não isso apenas, mas coexistência,
Ou digamos que o fim precede o começo
E o fim e o começo existiram sempre
Antes do começo e depois do fim.
E tudo é sempre agora. As palavras contraem-se,
Estalam e às vezes quebram, com a carga,
Com o esforço, falham, resvalam, sucumbem,
Definham quando inexactas, não ficam no sítio,
Não ficam quietas. Vozes esganiçadas
Que ralham, gracejam ou simplesmente tagarelam,
Sempre as agridem. A Palavra no deserto
É sombra que chora na doença fúnebre,
O alto lamento da desconsolada quimera.
( T. S. Eliot )
Apenas no tempo; mas o que somente vive
Pode somente morrer. As palavras, depois da fala, alcançam
O silêncio. Apenas pela forma, pelo padrão,
Podem as palavras ou a música alcançar
A quietação, como uma jarra chinesa ainda
Se move perpetuamente em sua quietação.
Não a quietação do violino, enquanto a nota dura,
Não isso apenas, mas coexistência,
Ou digamos que o fim precede o começo
E o fim e o começo existiram sempre
Antes do começo e depois do fim.
E tudo é sempre agora. As palavras contraem-se,
Estalam e às vezes quebram, com a carga,
Com o esforço, falham, resvalam, sucumbem,
Definham quando inexactas, não ficam no sítio,
Não ficam quietas. Vozes esganiçadas
Que ralham, gracejam ou simplesmente tagarelam,
Sempre as agridem. A Palavra no deserto
É sombra que chora na doença fúnebre,
O alto lamento da desconsolada quimera.
( T. S. Eliot )
O Futuro Do Homem Na Era Eléctrica
Kermode: Iremos provavelmente utilizar muito a palavra tecnologia nesta conversa. Por isso, vou começar por lhe perguntar o que quer dizer exactamente com esta palavra no contexto da sua teoria?
McLuhan: Procuro não ter muitas definições próprias, Frank, mas concebo as tecnologias como extensões do corpo e das capacidades humanas, quer se trate de vestuário ou de habitação, ou de outros tipos de tecnologias mais comuns, como rodas, estribos, que são extensões de várias partes do corpo. A necessidade de ampliar as capacidades humanas a fim de lidar com diversos ambientes fez surgir essas extensões, sejam elas ferramentas ou mobiliário. Entendo por tecnologias, essas ampliações do poder humano uma espécie de deificações do homem.
Kermode: Sim, e o seu desenvolvimento altera, como defende, o padrão global dos sentidos.
McLuhan: As tecnologias criam ambientes. Cada uma reorganiza imediatamente os padrões de associação humana e cria, na realidade, um novo ambiente, que introduz uma mudança, talvez mais sentida do que percebida, nas relações e nos padrões sensoriais.
( Marshall McLuhan )
Tratado Da Evidência
"Mantemos relações «argumentáveis», portanto descartáveis. Quando eu só quero o brilho indesmentível da evidência."
( Pedro Mexia )
Fazer esquecer
"Não é espantoso que a mudança de lugar contribua de tal maneira para nos fazer esquecer, como num sonho, o que não gostamos de pensar que é real?"
( Karl Philipp Mortiz )
Sem Título
Negarei a casa ardente
do pensamento incessante
para sentir a verdade
simples e pura da chuva
a cair-me sobre a pele?
(Isumi Shikibu)
do pensamento incessante
para sentir a verdade
simples e pura da chuva
a cair-me sobre a pele?
(Isumi Shikibu)
"Queria saber..."
Queria saber
do destino dos anjos
quando voam
no mar
dos nossos olhos
No céu líquido
dos olhos
das mulheres
*
Tem todos os anjos
o vício:
da queda?
(Maria Teresa Horta)
do destino dos anjos
quando voam
no mar
dos nossos olhos
No céu líquido
dos olhos
das mulheres
*
Tem todos os anjos
o vício:
da queda?
(Maria Teresa Horta)
O Primeiro Amor
Dizem
que o primeiro amor é o mais importante.
É muito romântico,
mas não é o meu caso.
Algo entre nós houve e não houve,
deu-se e perdeu-se.
Não me tremem as mãos
quando encontro pequenas lembranças,
aquele maço de cartas atadas com um cordel,
se ao menos fosse uma fita.
O nosso único encontro, passados anos,
foi uma conversa de duas cadeiras
junto a uma mesa fria.
Outros amores
continuam até hoje a respirar dentro de mim.
A este falta fôlego para suspirar.
No entanto, sendo como é,
não lembrado,
nem sequer sonhado,
consegue o que os outros não conseguem:
acostuma-me com a morte.
( Wistawa Milewska )
que o primeiro amor é o mais importante.
É muito romântico,
mas não é o meu caso.
Algo entre nós houve e não houve,
deu-se e perdeu-se.
Não me tremem as mãos
quando encontro pequenas lembranças,
aquele maço de cartas atadas com um cordel,
se ao menos fosse uma fita.
O nosso único encontro, passados anos,
foi uma conversa de duas cadeiras
junto a uma mesa fria.
Outros amores
continuam até hoje a respirar dentro de mim.
A este falta fôlego para suspirar.
No entanto, sendo como é,
não lembrado,
nem sequer sonhado,
consegue o que os outros não conseguem:
acostuma-me com a morte.
( Wistawa Milewska )
Saudade
"A saudade não está na distância das coisas, mas numa súbita fractura de nós, num quebrar de alma em que todas as coisas se afundam."
( Vergílio Ferreira )
( Vergílio Ferreira )
Segunda-feira
Apesar das ruínas...
Apesar das ruínas e da morte
Onde sempre acabou cada ilusão
A força dos meus sonhos é tão forte
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias
( Sophia de Mello Breyner )
Onde sempre acabou cada ilusão
A força dos meus sonhos é tão forte
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias
( Sophia de Mello Breyner )
Uma Narrativa Verdadeira
I
Somos animais dramáticos e não há nada a fazer. Do amor ao trabalho, do futebol ao trânsito, da política ao tempo vivemos na urgência de organizar toda a nossa vida sobre a forma de história. Somos excessivos. Dizemos frases como: “nunca os preços estiveram tão caros”, “é o pior momento da minha vida”, “nunca amei ninguém assim”. Somos excessivos para sermos eficazes: as histórias têm horror ao vazio e a ânimos mornos. E contamos (somos) histórias porque precisamos delas. Porque necessitamos, como pão para a boca, de uma causa e de um efeito, de uma ordem natural, visível, que dê sentido à vida. Sempre foi assim. Dos mitos milenares aos contos sussurrados no escuro pelas mães, do Cinema às Notícias, contamos e ouvimos histórias porque estas são a forma natural de encontrarmos significado, de nos reconhecermos e inscrevermos na humanidade. Sem histórias não seriamos nada: uma frágil luz no Universo, um absurdo sem razão para existir.
II
É também com narrativas que vivemos colectivamente. Elas revelam quem somos, como chegamos aqui e antecedem os próximos passos em comunidade. A política é um combate de narrativas, uma nova que pretende destronar uma antiga, numa batalha sem fim. As narrativas mais simples são geralmente as mais populares. Vivem de motivações banais, na ausência de ambiguidade, são de fácil consumo e rápida digestão. E isso é um verdadeiro problema, porque as narrativas mais simples são também as narrativas mais falsas. Porque não há nada na nossa vida colectiva que seja simples, inequívoco ou evidente. Cada vez menos. Podemos ser animais dramáticos mas a vida não é uma novela das sete. Mas nada demove a força das narrativas simples. Estão, diariamente, na boca dos piores políticos. Às tantas já não dizem nada sobre a vida, sobre nós, são apenas mentiras rodando de mão em mão. E vivermos em função de mentiras é o primeiro passo para a tragédia.
III
Paul Krugman, prémio Nobel da Economia, tem sido uma das vozes mais lúcidas no desmontar das narrativas mais poderosas que contaminam a discussão mundial sobre a crise das dívidas soberanas. Ele separa-as em duas: a alemã, que chama de moral, que associa à situação dos países em risco de incumprimento ao deficit excessivo, resultado de um pecado original pelo qual são castigados (o que, por ironia, é um pressuposto da tragédia Grega) e a narrativa Americana Republicana que associa a crise ao excesso de despesa pública em áreas sociais. Uma leitura atenta de Krugman permite constatar a fragilidade desses balanços. Mas Krugman não fica por aqui, apontando enfim uma ligação vital que une todos países em dificuldades: o desequilíbrio das suas balanças comerciais. Explicar porque estes países não conseguiram, nos últimos trintas anos, tornarem-se competitivos é algo bem mais difícil e distante que o binómio crime/castigo, países cumpridores/países gastadores, povos trabalhadores/povos preguiçosos que tanto contamina o discurso Europeu. E é uma análise que não poderá deixar de considerar o contexto internacional em que cada país ensaiou a sua modernização. A questão é saber se, alguma vez, será possível a ascensão de narrativas públicas mais complexas que o enredo de um filme série B. Se, por momentos, poderemos viver com verdade.
( Edgar Medina )
Sexta-feira
Menina
Quando for grande quero ser avó
Quero ter olhos de céu às vezes
Tocar piano, falar gato e falar riso
Dançar descalça e feliz dos pés
Ser linda de palavras e cantigas
Segredo do mar e de gaivotas
Quero voar azul como um menino
Que assobia ou dorme ou voa
Quero a certeza de flores e dias
Longe como um sol vermelho
Ou países ou amor sincero
Quando eu for grande quero ser pequena
( Nuno Camarneiro )
Quero ter olhos de céu às vezes
Tocar piano, falar gato e falar riso
Dançar descalça e feliz dos pés
Ser linda de palavras e cantigas
Segredo do mar e de gaivotas
Quero voar azul como um menino
Que assobia ou dorme ou voa
Quero a certeza de flores e dias
Longe como um sol vermelho
Ou países ou amor sincero
Quando eu for grande quero ser pequena
( Nuno Camarneiro )
A Chegada de Twainy
"- Ninguém há de arrancar-me um «ai» - dizia Twainy.
A verdade é que ninguém tencionava arrancar-lhe coisa alguma.
Twainy estava sozinha, tão sozinha que o próprio vento se afastava dela, assustado com tanta solidão.
Twainy não era bem uma pessoa. Mas também já não era transparente. Estava numa fase vegetal. Tinha uma flor no alto da cabeça, a cara como uma maçã, e pés de pau. Parecia um arbusto, mas andava. Provavelmente ia tornar-se rapariga. Mas pouco percebia do assunto."
( Hélia Correia )
Segundo Maria Judite De Carvalho
AS MAIS BELAS HISTÓRIAS DE AMOR
O FALCÃO - Giovanni Boccaccio
A ARLESIANA - Alphonse Daudet
UNS BRAÇOS - Machado de Assis
DE VIAGEM - Guy de Maupassant
AMOR - Anton Tchekhov
IDÍLIO TRISTE - Fialho d'Almeida
A SENHORA FONSS - Jens Peter Jacobsen
A FUGA - Rainer Maria Rilke
A LIÇÃO DE CANTO - Katherine Mansfield
UMA HISTÓRIA DE AMOR - Miguel de Unamuno
O RIO QUENTE - Erskine Caldwell
HUBER E MINNIE - Aldous Huxley
A RAPARIGA DO GRAMOFONE - Vasco Pratolini
AS PÉROLAS - Lygia Fagundes Telles
O FALCÃO - Giovanni Boccaccio
A ARLESIANA - Alphonse Daudet
UNS BRAÇOS - Machado de Assis
DE VIAGEM - Guy de Maupassant
AMOR - Anton Tchekhov
IDÍLIO TRISTE - Fialho d'Almeida
A SENHORA FONSS - Jens Peter Jacobsen
A FUGA - Rainer Maria Rilke
A LIÇÃO DE CANTO - Katherine Mansfield
UMA HISTÓRIA DE AMOR - Miguel de Unamuno
O RIO QUENTE - Erskine Caldwell
HUBER E MINNIE - Aldous Huxley
A RAPARIGA DO GRAMOFONE - Vasco Pratolini
AS PÉROLAS - Lygia Fagundes Telles
As Coisas Fora Do Lugar
A ausência medida neste rosto humano,
a boca desampara o segredo de um desejo,
que o olhar nega: noites rasuradas,
aflitas e sem partilha, no pendor torpe
que as coisas desejaram, por fora do lugar
comporem outra ordem, que tememos.
( José Alberto Oliveira )
a boca desampara o segredo de um desejo,
que o olhar nega: noites rasuradas,
aflitas e sem partilha, no pendor torpe
que as coisas desejaram, por fora do lugar
comporem outra ordem, que tememos.
( José Alberto Oliveira )
Parque Dos Cervos
"Se uma vez por outra escrevo é porque certas coisas não se querem separar de mim tal como eu não quero separar-me delas. No acto de escrevê-las elas penetram em mim para sempre - através da caneta e da mão - como por osmose."
( Cristina Campo )
Quinta-feira
O Tempo
Encontrei-me com o tempo e falámos muito à vontade. Acordei, vi e ouvi. Recordei as "Metamorfoses" de Ovídio, não por ser conhecedora mas por ser apaixonada. A paixão ama antes de conhecer, e é mal vista porque erra de acordo com a multiplicação resultante da pulsão natural de cada um. O que muitos desconhecem é que alguns desses erros são anos de caminho conquistados à alegria e ao fulgor dos raros instantes plenos da felicidade. "(...) ATÉ AQUELE, que todas as coisas governa com sua luz astral, o Sol, o amor conquistou. Vou contar-vos os amores do Sol (...)". É de todos em um e de um em todos que falam os clássicos.
Saberemos no tempo o que o tempo fará de nós. Volto a recordar, a tempo chegou-me, literalmente, uma das vozes de Fernanda Botelho, que não percebi logo na altura, era a propósito duma selecção e tradução de Maria Judite de Carvalho das mais belas histórias de amor, com ilustrações de Maria Helena Mattos. Estava na feira das velharias e um velho desconhecido entregou-me autoritariamente um livro encadernado de capa e contracapa lisas, encarnado vivo, dizendo: "são histórias de amor é um livro bom para mulheres", aceitei. Abri e voltei a fechar, a tempo de lhe agradecer o que me impusera nas mãos sem que ele próprio soubesse do que se tratava. Pensei que pudesse ser uma espécie de arauto benigno ou maldito. Segui em frente, contra o sol, ao som da minha alma, porque deixara o meu coração no meio da lua, muito longe.
No prefácio das mais belas histórias de amor, a voz de Fernanda Botelho, comovente e dura simultaneamente, o que é pouco frequente e nada lógico. "(...) Antídoto do mal ou mensageiro do Diabo, grande promessa ou desespero supremo, o Amor vai fazendo vítimas reconhecidas para quem, paradoxalmente, ele é, a um tempo, a Vida e a Morte. As formas particulares de o exprimir são funções da época, da geografia e das condições socias (...) Exercendo uma inspecção tão opressiva sobre o destino humano, que a seu grado maneja, transforma, revela e domina, com poderes de vida ou de morte, o Amor é, de todas as ditaduras, a única inatacável e infalível. E bem-amada. Por Deus, como poderá ele ser tão poderoso e potente - a não ser por atribuição divina? O problema insolucionável será apenas o de saber em que fase seremos nós próprios: antes ou depois d'Ele?".
Não sou brilhante em nada, mas tenho a amizade do tempo, confio; sei que me quer bem, que não me mente, que não me ameaça, que não me acusa, que não foge de mim. Sei o que pode sangrar uma ferida antes de corrermos perigo de vida, porque aprendi com o tempo e não com o corpo; sei da importância do sofrimento até sentirmos que nos pode secar, porque aprendi com o tempo e não com o coração; sei da força do amor até onde não nos deixamos apagar, porque aprendi com o tempo e não com a alma. A maior parte das pessoas não admiram ninguém que esteja muito perto porque não se sentem confortáveis e nunca se entregam a pessoas muito obstinadas, só os que são da mesma "família" conseguem acreditar nos encontros inusitados. Hoje é um dia muito feliz porque me reencontrei com o tempo, em paz. Dizem alguns sábios que o tempo não existe, a mim basta-me um nome para existir.
Os ritos
"Os ritos são no tempo o mesmo que o domicílio é no espaço."
(Saint-Exupéry)
O Anjo
O Anjo que em meu redor passa e me espia
E cruel me combate, nesse dia
Veio sentar-se ao lado do meu leito
E embalou-me, cantando, no seu peito.
Ele que indiferente olha e me escuta
Sofrer, ou que, feroz comigo luta,
Ele que me entregara à solidão,
Poisava a sua mão na minha mão.
E foi como se tudo se extinguisse,
Como se o mundo inteiro se calasse,
E o meu ser liberto enfim florisse,
E um perfeito silêncio me embalasse.
(Sophia de Mello Breyner)
E cruel me combate, nesse dia
Veio sentar-se ao lado do meu leito
E embalou-me, cantando, no seu peito.
Ele que indiferente olha e me escuta
Sofrer, ou que, feroz comigo luta,
Ele que me entregara à solidão,
Poisava a sua mão na minha mão.
E foi como se tudo se extinguisse,
Como se o mundo inteiro se calasse,
E o meu ser liberto enfim florisse,
E um perfeito silêncio me embalasse.
(Sophia de Mello Breyner)
Massa de letras (sopa)
"O senhor Calvino, com um guardanapo, limpava, cuidadoso, os restos de letras que permaneciam à volta da sua boca, mas por vezes uma ou outra escapava. Depois daquele almoço, por exemplo, um A ali ficara, teimoso, no lado direito do queixo.
Calvino, olhando-se agora ao espelho, não pôde deixar de admirar a capacidade de resistência daquela letra aos anteriores enérgicos movimentos do seu guardanapo, e observava então aquele A como quem observa um alpinista agarrando-se desesperadamente para não cair. De facto, aquela letra parecia resistir, e como que pedia, Calvino pensou mesmo nessa palavra - compaixão.
Calvino naquele dia decidiu fechar os olhos. Algo o comovera em toda aquela cena.
E assim saiu à rua com a consciência plena de que tinha um A, um pequeno A, no lado direito do queixo.
Várias pessoas cravaram os olhos naquela irrupção alfabética, e a Calvino não passava despercebido o modo como alguns desconhecidos se controlavam, no último momento, para não lhe dizerem: desculpe, mas o senhor tem um A a cair do queixo! Mas ninguém teve coragem para tal."
( Gonçalo M Tavares )
O Fim
A Aia:
E agora?...
O Desconhecido:
Agora...Morreu a capital: há mais país. Triunfar pela vida ou pela morte, mas triunfar. Fomos iniciados.
A Aia:
Triunfar ainda... é impossível.
O Desconhecido:
Desde ontem a realidade é o impossível.
(António Patrício)
Quarta-feira
Coisas Acabadas
Dentro do medo e das suspeitas
com a mente agitada e os olhos aterrados,
fundimos e planeamos o que fazer
para evitar o perigo
certo que desta forma horrenda nos ameaça.
No entanto equivocamo-nos, não está esse no caminho;
falsas eram as mensagens
(ou não as ouvimos, ou não as sentimos bem).
Outra catástrofe, que não imaginávamos,
brusca, torrencial cai sobre nós,
e desprevenidos - como teríamos tempo - arrebata-nos.
( Konstandinos Kavafis )
com a mente agitada e os olhos aterrados,
fundimos e planeamos o que fazer
para evitar o perigo
certo que desta forma horrenda nos ameaça.
No entanto equivocamo-nos, não está esse no caminho;
falsas eram as mensagens
(ou não as ouvimos, ou não as sentimos bem).
Outra catástrofe, que não imaginávamos,
brusca, torrencial cai sobre nós,
e desprevenidos - como teríamos tempo - arrebata-nos.
( Konstandinos Kavafis )
O Gaipo
"Sirácide é escritor do Antigo Testamento. Interessa-lhe a sabedoria, que não é filosofia mas uma inteligência do coração, como aquela concedida por Deus a Salomão que assim lhe tinha pedido: "Darás ao teu servo um coração que escuta para julgar o teu povo e para discernir entre o bem e o mal" (1Rs3,9). Muito sinceramente fala de si como o último a chegar dizendo: "Quanto a mim, o último, sou como aquele que respiga depois dos vindimadores" (Eclo 33,16). Cada um de nós que folheia as escrituras sagradas é o último a chegar entre os leitores; cada um de nós passa através daquelas linhas como entre as vinhas já despojadas, que não nos pertencem mas às quais somos admitidos porque, como últimos, somos os mais pobres."
( Erri De Luca )
Uma obra de arte
"Não se aborda uma obra de arte - quem duvida? - como se aborda uma pessoa, um ser vivo ou outro fenómeno natural. Poema, quadro, estátua, exigem exame com um número de qualidades preciso."
( Jean Genet )
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