21/04/17

A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado

5. A invenção do Cinema

Nem todos se juntaram aos esforços daqueles que queriam inventar máquinas capazes de voar.
Alguns (outros) inventaram o Cinema.

Gonçalo M Tavares

1970

14/04/17

Odisseia

"A ti não te está destinado, ó Menelau, vindo de Zeus,
Morrer em Argos criadora de cavalos, nem encontrar o teu fim.
Mas os imortais te mandarão para a Planura Elísia,
No extremo da terra, onde está o louro Radamanto.
Aí se oferece aos homens uma vida fácil.
Não neva, não há grande invernia, nem chuva,
Mas as brisas do Zéfiro sopram sempre ligeiras,
Vindas do Oceano, para refrescar os homens.
Isto porque possuis Helena, e para eles és genro de Zeus".

[ Homero, Odisseia, 4.561-569, em tradução de Maria Helena da Rocha Pereira ]

Maria Helena da Rocha Pereira

1925-2017

24/03/17

O Sino

(...) Acabou por decidir que a obsessão da sua presença seria preferível à obsessão da sua ausência (...) Mas por tardiamente ter descoberto em si o talento para a felicidade, maior o seu desencanto ao verificar que não podia ser feliz nem na companhia do marido, nem longe dele.

Iris Murdoch

1919 - 1999

17/03/17

Mágica

Não há amor ilegítimo.
*
Axioma para os músicos: Os pássaros cantm mal.
Outro axioma para os músicos: Os barcos cantam melhor do que as sereias.
*
Conselhos aos pintores: Para estrangular a natureza, há que ter dedos de fada.
*
Os meus versos são cálculos de evasão
*
Era tão mau actor que chorava de verdade
*
A Poesia sou eu.
*
Fugir do Homem, fugir da Natureza e sentar-me em cima do arco-íris com uma pluma na mão.

Vicente Huidobro

1893 - 1948

10/03/17

03/03/17

Húmus

1 de Maio.

Não só os sentimentos criam palavras, também as palavras criam sentimentos. As palavras formam uma arquitectura de ferro. São a vida quase toda a nossa vida - a razão e a essência desta barafunda. É com palavras que construímos o mundo. É com palavras que os mortos se nos dirigem. É com palavras, que são apenas sons, que tudo edificamos na vida. Mas agora que os valores mudaram, de que nos servem estas palavras? É preciso criar outras, empregar outras, obscuras, terríveis, em carne viva, que traduzem cóleras, o instinto e o espanto.

Raul Brandão

1867 - 1930

24/02/17

S / Título

Oh, como a hipocrisia
seduz, e como se esquece
que em criança se está mais perto
da morte que na velhice

Ébria de sono, a criança
sorve ao menos a ofensa do pires,
mas eu - com quem me amuaria? -
sozinho estou, em todos os caminhos.

Não quero dormir como um peixe
no desmaio fundo das águas,
é-me querida a escolha livre
dos meus cuidados, dores e mágoas.

Óssip Mandelstam

1891 - 1938

10/02/17

03/02/17

Diário Íntimo

(...) O homem que não tem vida interior é escravo do que o cerca (...)

Henri-Frédéric Amiel

1821 - 1881

27/01/17

20/01/17

Espera

Enquanto dormes
No umbral dos teus sonhos,
Espero e contemplo silenciosamente o teu rosto
Quando a primeira estrela da manhã aparece na tua janela.
Assim, à beira-mar,
O asceta em plena meditação
Olha para o Este...
As suas horas de vigília são passadas em insónia e êxtase,
Enquanto espera a sua imersão
Na primeira luz da manhã.

Com os meus olhos
Beberei o primeiro sorriso
Que floresce nos teus lábios entreabertos
Como uma flor recém-nascida...
Esse é o meu desejo

Rabindranath Tagore

1861 - 1941

13/01/17

Cerejas

Nas cerejas havia o aroma da fermentação como em mais nenhum fruto. Apanhadas directamente da árvore, sabiam a enzimas com gosto a sol e este sabor era complementado com o brilho especial da sua pele.
Se comermos cerejas mesmo uma hora depois de serem apanhadas, o seu sabor funde-se com o da sua própria podridão. No dourado ou no vermelho da sua cor há sempre um vislumbre de castanho: a cor na qual irão amolecer e desintegrar-se.
A cereja refresca, não devido à sua pureza - como a maçã - mas por levemente, quase imperceptivelmente, picar a língua com a efervescência da sua fermentação.
Graças ao tamanho reduzido da cereja e à leveza da sua carne e à insubstancialidade da sua pele, o caroço da cereja foi sempre incongruente. Comer a cereja nunca nos preparava bem para o seu caroço. Quando o cuspíamos, parecia ter pouca relação com a carne que o rodeava. Assemelhava-se mais a um precipitado do nosso próprio corpo, um precipitado misteriosamente produzido pelo acto de comer cerejas. Após casa cereja, cuspíamos um dente de cereja.
Os lábios, distintos do resto do rosto, possuem o mesmo brilho das cerejas e a mesma plasticidade. Ambos têm a pele semelhante è pele de um líquido. É uma questão de superfícies capilares. Faz um teste para ver se a nossa memória não nos falha ou se os mortos exageram. Põe uma cereja na boca, não a mordas já, e por um milésimo de segundo repara como a densidade, a suavidade e a resiliência do fruto se equiparam perfeitamente à natureza dos teus lábios que o sustentam.

[ in "Aqui Nos Encontramos", Ed. Civilização ]

John Berger

1926 - 2017