16/06/17

Habito Uma Dor

Não deixes o cuidado de governar o teu coração a essas ternuras parentes do outono do qual retiram a sua placidez e afável agonia. O olho enruga-se precocemente. O sofrimento conhece poucas palavras. Prefere deitar-te sem fardos: sonharás com o amanhã e o teu leito ser-te-á ligeiro, sonharás que a tua casa não tem vidros. Sentir-te-ás impaciente por te unir ao vento que percorre um ano numa noite. Outros cantarão a incorporação melodiosa, as carnes que já só personificam a magia da ampulheta. Condenarás a gratidão que se repete. Mais tarde serás equiparado a um gigante que se desagregou, senhor do impossível...
E no entanto.
Não fizeste senão aumentar o peso da tua noite. Regressaste à pesca nas muralhas, à canícula sem verão. Estás furioso contra o teu amor no centro de um acordo que se assusta. Pensa na casa perfeita que nunca verás erguer-se. Para quando a colheita do abismo? Mas tu furaste os olhos do leão. Julgas ver passar a beleza por cima das lavandas negras...
O que foi que te ergueu, uma vez mais, um pouco mais acima, sem te convencer?
Não há cadeiras puras.


René Char

1907 - 1988

19/05/17

Elogio Da Sombra

Quando os artesãos de antigamente lacavam estes objectos, quando lhes traçavam desenhos com pó de ouro, tinham necessariamente na cabeça a imagem de alguma câmara sombria e visavam portanto, sem dúvida alguma, o efeito a obter sob uma luz indigente; se utilizassem dourados em profusão, podemos supor que teriam em conta a maneira como eles iriam desprender-se na escuridão ambiente, e em que medida iriam reflectir a luz das lâmpadas.

Junichiro Tanizaki

1886 - 1965

05/05/17

Em Particular

Qual o trapo preso à cintura, qual o farrapo mais sórdido
Que não tem um preço?
Para quê menear o corpo, sentir luxúria
Sem uma finalidade?
E assim adorámos-te um pouco
Mais do que a Cristo.

Djuna Barnes

1892 - 1982

14/04/17

Odisseia

"A ti não te está destinado, ó Menelau, vindo de Zeus,
Morrer em Argos criadora de cavalos, nem encontrar o teu fim.
Mas os imortais te mandarão para a Planura Elísia,
No extremo da terra, onde está o louro Radamanto.
Aí se oferece aos homens uma vida fácil.
Não neva, não há grande invernia, nem chuva,
Mas as brisas do Zéfiro sopram sempre ligeiras,
Vindas do Oceano, para refrescar os homens.
Isto porque possuis Helena, e para eles és genro de Zeus".

[ Homero, Odisseia, 4.561-569, em tradução de Maria Helena da Rocha Pereira ]

Maria Helena da Rocha Pereira

1925-2017

24/03/17

O Sino

(...) Acabou por decidir que a obsessão da sua presença seria preferível à obsessão da sua ausência (...) Mas por tardiamente ter descoberto em si o talento para a felicidade, maior o seu desencanto ao verificar que não podia ser feliz nem na companhia do marido, nem longe dele.

Iris Murdoch

1919 - 1999